sábado, 11 de abril de 2015

Da sexualidade clandestina aos armários abertos

Falar sobre sexualidade foi por muito tempo algo proibido, sexo somente pra reproduzir, debaixo dos lençóis e na calada da noite. Mas para alívio de uma parte pensante da humanidade, as coisas estão mudando gradativamente, mesmo diante da resistência retrógrada de alguns. Ao olhar para a história é possível acompanhar as conquistas de homens e mulheres ao longo do tempo para viver seu sexo e sua individualidade.

E, nos últimos anos, o embate entre homossexuais - em todas as suas vertentes - e os heterossexuais - considerados "normais" - tem se tornado mais forte, embora velado. De um lado, um grupo aparentemente crescente, engajado, segue atento a todos os tipos de violência que sofreu e ainda sofre, e no outro, na contramão, um grupo formado por homens e mulheres conservadores, integrantes de mundo inconsciente, longe da empatia e do respeito, felizes em empunhar a bandeira de valores equivocados e distorcidos. 

Um desses grupos acompanho de perto, e isso não é novidade para ninguém. E, por este motivo, tenho ouvido relatos que começam com homens e mulheres que atualmente tem em média 50 e poucos anos, passando por quarentões, balzaquianos, jovens de vinte anos, até a Geração Y.

A começar pela história de um homem que apenas aos 60 anos decidiu viver sua homossexualidade, após um longo casamento heterossexual "feliz" com filhos, subordinado a normas e convenções. Segundo ele, a decisão resultou em uma avalanche de reações adversas, mas, principalmente, sua paz de espírito em não viver mais na clandestinidade e, a possibilidade de viver paixões tão intensas quantos as juvenis. 

Outro relato, é de um homem de 50 e poucos anos, que entendeu e decidiu viver sua sexualidade  aos 28 anos, no início da década de 80, onde ser gay era algo incompreensível, associado diretamente a AIDS, e as travestis e transformistas apresentadas nos programas do tio Silvio Santos. Ele me contou que, assim com tantos, ele tentou o suicídio, por achar naquele momento que a morte seria melhor que ser gay. Passada a crise, ele aprendeu a viver sua sexualidade, em meio a fantasmas, na calada da noite, juntos de outros como ele.  

Já os com 40 anos, tiveram crises parecidas, viveram sua sexualidade em meio a punks, góticos, fashionistas, sem nunca sair assumidademente do armário. Um deles em especial, me disse que nunca superou as piadinhas de mau gosto que teve de ouvir calado, e o medo constante de sofrer violências por um crime que não existe, e sem possibilidade de defesa. Dois dos homens e uma mulher dessas gerações, assim como tantos outros, tem um único pesar, jamais terem tido a coragem de assumir sua homossexualidade, principalmente, aos familiares, e hoje viverem ainda fadados à clandestinidade.

"Imagine levar seu sobrinho a um campeonato de futebol na escola, a convite dele, e no percurso vê-lo fazer piadas ofensivas a um garoto gay e ter de ficar calado. Qual seria a reação dele ao descobrir que o tio mais querido também é gay?" - desabafou.

As gerações passam, mas alguns embates são os mesmos. Ouvi relatos de amigos gays e lésbicas de 20 e poucos anos, que como as gerações anteriores tiveram medo, passaram por crises, mas decidiram viver sua sexualidade sem mentiras, a começar em casa. O susto é inevitável, afinal nenhum pai e mãe concebeu os filhos para serem "diferentes", para não dizer gays. Mas será que esses filhos gays, se pudessem optar, escolheriam a homossexualidade ou uma vida dita como normal? 

Entre mortos e feridos, gradualmente, o choque de realidade daqueles que não foram educados para entender a homossexualidade vai se apaziguando, trazendo luz e entendimento por meio do chamado amor incondicional. Como deixar de amar um filho ou filha mesmo que ele seja gay ou lésbica? Ainda que haja pais que prefiram ter filhos ladrões a homossexuais. "Minha mãe hoje aceita, me respeita, e ainda recebe minhas namoradas em casa. No início não foi fácil, mas valeu a pena." - contou uma amiga gay.

E, por fim, a chamada Geração Y, que ao meu ver nasce desprovida de preconceitos e disposta a viver de forma mais fácil. Conheço diversos adolescentes, conscientes de si, que apenas apresentaram seus namorados e namoradas aos pais e a família de forma simples e direta. "Aceita mãe que dói menos!" - disse uma delas. "Pai sou gay. Me passa o café." - falou outro. Aos pais, restou dar o primeiro passo rumo a novos aprendizados. 

A escala dessas gerações mostra uma mudança de comportamento que pode nos conduzir para uma sociedade capaz de respeitar e conviver de forma harmônica com as diferenças. Sinceramente, espero que a cada dia mais pessoas possam deixar de viver sua sexualidade na clandestinidade, abandonando a vida claustrofóbica dentro dos armários. Creio que este é um lampejo de luz, quase uma nova Renascença, em meio ao período sombrio que vivemos e convivemos com tantos boçais bolsonaros.

Silas Macedo

sábado, 4 de abril de 2015

Bora Malhar o Judas

Vamos malhar o Judas! Porque hoje é sábado de Aleluia! Era esse convite que recebi durante anos de minha infância no dia que antecedia a Páscoa. Acordava em meio a empolgação de buscar trapos, sapatos e roupas velhas para ajudar na confecção no boneco de Judas Iscariot - o traidor de Jesus Cristo, que se suicidou. A criançada toda se reunia e aguardava ansiosamente para bater no traidor do salvador. Me lembro que havia competições entre ruas e bairros para saber qual era o melhor Judas. E, pontualmente, ao meio dia começavam as pauladas, chutes, xingamentos e, por fim, atear fogo ao que sobrava.

Foto: Michelle Farias \ G1
Quando pequeno participava da farra, sem entender ao certo o motivo para o linchamento, acredito que devido a bagunça da criançada. Porém, as vezes que questionei o real motivo de malhar o Judas, recebia respostas enfáticas afirmando que assim que deveriam ser tratados os traidores, ainda mais o de Jesus. E reforçado pelos ensinamentos ingênuos e cheios de fé de minha avó, envoltos a dogmas católicos, "aceitei" aquele rito popular.

O tempo passou e, hoje recordei com saudosismo dessa ápoca, buscando notícias se ainda malhavam o Judas por este enorme País. Para minha surpresa, a brincadeira acontece nos dias de hoje. Uma tradição forte nas cidades do interior do Brasil, mas que aconteceu também nas capitais como protesto, dando rosto de políticos brasileiros aos bonecos.

O que questiono aqui não é a tradição popular, mas os valores por trás da ação. Incentivar e ensinar que deve-se linchar e matar alguém, independente do motivo, é algo que me assusta. Há quem defenda que se trata apenas de uma brincadeira, uma catarse coletiva, ou que estou intelectualizando o assunto. Mas, sinceramente, vejo aí uma forma de incitação a violência. Principalmente porque a maioria das pessoas, neste caso como crianças e jovens, não tem a natureza de questionar o que aprendem, e outras têm impulsos e desejos de  violência e barbárie motivados por frustrações e motivos diversos.

Uma criança pode no futuro se tornar um homem violento e defender que atos de violência sejam considerados normais por causa da malhação do Judas? Não acredito que haja essa interferência direta, mas que ela possa potencializar tendências já existentes nesse ser humano. Além disso, será que devemos mesmo malhar o Judas no dia que antecede a Páscoa? Um período de reflexão, renovação e perdão? A maioria das religiões cristãs pregam que Deus é amor e perdoa os pecados da humanidade, e ensinou por meio de seu primogênito que devemos amar e perdoar o próximo, inclusive nossos inimigos. Então por que malhar o Judas?

Partindo desta pergunta, é necessário questionar quais ensinamentos queremos transmitir aos nossos sucessores. Diretrizes que os ajudem a se tornar pessoas conscientes, seres pensantes, capazes de compreender o próximo e discernir o real motivo das coisas antes de tomar uma atitude impensada? Ou vamos preferir que eles continuem repetindo atos de barbárie que há tempos deveriam ter sidos extinguidos da humanidade?

Prefiro optar que devemos malhar velhos conceitos e renascer na páscoa do esclarecimento e mudança de atitudes.

Silas Macedo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Maternidade à loucura

Há dias que devemos ficar atentos sobre assuntos e situações do cotidiano que trazem mensagens que nos remetem a uma reflexão. Tudo começou com uma notícia no rádio pela manhã que relatava sobre um recém-nascido que foi encontrado por um pedreiro em um cemitério da cidade de Lages, em Santa Catarina. Ao ouvir a notícia, imediatamente lembrei da vez que fiz uma reportagem onde um bebê foi encontrado em um bairro de Guarulhos em uma lixeira pelos coletores de lixo pouco antes de lançarem os desejos no caminhão, fato que poupo a vida da criança. 

No momento em questionei os motivos que levam uma mãe a desejar a morte do próprio filho, rompendo com as leis do sangue e do amor incondicional, a repórter Rachel Sheherazade - a quem tenho grande admiração profissional - que dava a notícia também questionou o fato e demonstrou claramente sua revolta. Ela fez questão de citar que mesmo nos casos de depressão pós parto - cujo fato da mãe querer matar o filho é algo normal, sensação causada pelas mudanças causadas pela maternidade - atos de violência ou infanticídio não são tolerados. Particularmente, acredito que essa explicação comportamental ajuda a compreender, mas não justificar barbáries desse tipo.

A jornalista lembrou ainda que no período do Brasil colônia existia a "Roda dos Expostos", local que funcionava em conventos e hospitais para abrigar crianças rejeitadas pelas mães. Fato histórico que nos faz recordar que a adoção é um ato de amor, dando a oportunidade de vida a criança. E que sentimentos acometem um mãe que esquece da possibilidade de adoção? Decidindo pela morte do ser que gerou.

No mesmo dia foi noticiado no Jornal Hoje (JH) da Rede Globo a reportagem sobre o número crescente de pessoas que desaparecem por ano no Brasil, e o trabalho realizado pelo projeto "Mães da Sé" - criado por uma mãe que teve a filha desaparecida - que ajuda na localização dos desaparecidos. Impossível não lembrar de uma reportagem cujo tema me permitiu entrevistar uma mãe que há anos procura o filho e, desde então deixa o quarto do desaparecido intacto na esperança do regresso dele. Que esperança e amor incondicional é esse que nutre a esperança de mães que sonham com o reencontro com seus filhos?

No início da noite, minhas indagações tiveram um exemplo dos sentimentos gerados pela maternidade, quiça o tal amor, ao ser abordado por uma mulher bem vestida, aparentando pouco mais de cinquenta anos, e uma boa condição financeira, que buscava encontrar o filho. Ela me abordou educadamente, pedindo informações sobre um suposto homem. Após alguns minutos de papo confuso, percebi nitidamente o desiquilíbrio emocional e psicológico daquela mulher. Lhe dediquei a atenção devida, mas ela decidiu ir embora.
Amor de mãe - Quais o limites entre loucura e sanidade?

Mas para minha surpresa, ela voltou para falar comigo devido a confiança devotada a mim. Aquela mãe estava com papéis com cópias da imagem de um homem negro - Barack Obama - que ela descrevia ser seu filho. "Meu filho deve ter hoje a idade deste homem bonito. O pai dele era negro, olhe as semelhanças nos traços da boca e o nariz dele. São iguais aos meus", afirmava. Quem olhava de longe, de forma superficial e desatenta, poderia achar a situação engraçada. Eu mesmo inicialmente tive vontade de rir, mas ao ver nos olhos daquela mulher o desejo insano de encontrar o filho, me enchi de compaixão.

Ouvi atento o relato que ela explicava que o filho foi retirado dela há anos pelo antigo companheiro. E que ela ainda o encontraria - mesmo que idealizado - até o final da vida. Só pude concordar e desejar a ela que de alguma forma seus anseios se concretizassem. Após o desabafo, ela se despediu, pegou suas malas e se misturou as muitas pessoas que transitam pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Inevitável não tentar entender os sentimentos que permeiam o universo da maternidade, desde o desejo de morte da cria, a esperança de encontrar o filho perdido, até o chamado amor incondicional. 

Talvez só as próprias mães, ou nem mesmo elas tenham total consciência dos caminhos tênues da maternidade à loucura. 

Silas Macedo

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Deficiência de que?

Esses dias fui surpreendido por uma situação delicada em relação a uma pessoa deficiente com mobilidade reduzida. Estava com uma amiga - vale ressaltar bem humana, respeitosa e consciente – em pleno Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando caminhando pelo saguão, ela resolveu usar o banheiro.

Eu fui ao banheiro masculino, e na sequência fui aguardá-la na porta do feminino, quando me deparei com uma cadeirante, simpática, com aparente trinta anos, que esperava para usar o sanitário para portadores de deficiência ou mobilidade reduzida.

Aguardei minha amiga e, para minha surpresa, ela saiu do banheiro reservado aos deficientes. Logo perguntei, e fui esclarecido que ela optou por usar aquele banheiro porque o coletivo estava lotado. Algumas risadas, até quando a cadeirante começou a proferir palavras agressivas, afirmando que minha amiga havia desrespeitado o direito dos cadeirantes em usar um banheiro exclusivo.

Símbolo Internacional de Acesso
Ficamos atônitos e perplexos com a avalanche de ataques. Nossa reação foi imediatamente pedir desculpas, e logo explicar a situação. Mas ainda sim ela repetia insistentemente o mesmo discurso: “Você acha que é melhor do que eu? Que pode usar o banheiro dos deficientes? Quem você pensa que é para me privar desse direito?”

Fiquei tranquilo, tentei acalmar os ânimos e explicar novamente o ocorrido, mas ela apenas repetia as mesmas palavras, se recusando a ouvir. Nitidamente vi um ser humano frustrado tentando projetar, justificar ou apaziguar suas frustrações as lançando em nós. Sem dúvida,  uma válvula de escape!

Sinceramente, entendo que há situações que uso do banheiro exclusivo não deva ser usado, por exemplo quando o cidadão usa o sanitário para deficientes pelo simples fato de dispor de mais espaço e permitir fazer qualquer coisa nele, desde se maquiar ou namorar.

Mas auto lá! Tudo é questão de bom senso, já que minha amiga usou o sanitário por nos máximo três minutos. Alguns municípios não têm uma legislação específica sobre o tema, mas a questão é que esses banheiros podem ser usados por qualquer cidadão na falta de um portador de deficiência. Assim como os assentos nos coletivos reservados para gestantes, idosos e deficientes.

A pauta deste incidente remete a reflexão sobre o uso desses direitos, englobando bom senso e respeito ao próximo, mas também a reação das pessoas. Neste caso, a cadeirante poderia ter reclamado ou informado educadamente a necessidade do uso exclusivo do banheiro, mas ela preferiu lançar suas frustrações no próximo. Fato que fez com que eu e minha amiga nos afastássemos. Nós reservando de receber o peso da frustração dela, mesmo porque ela seria incapaz de ouvir qualquer argumento ou desculpas naquele momento.

Finalizo questionando: Deficiência de que? Bom senso? Educação? Falta de informação? Empatia? Ou apenas deficiência física? 

Silas Macedo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Lista de Réveillon

Com a chegada do Réveillon é inevitável não fazer uma retrospectiva sobre o que aconteceu no último ano. Recordar bons e maus momentos, erros e acertos, e poder fazer um balanço com a intenção de fechar sempre com saldo positivo. Na sequência é comum estabelecer as metas para o ano novo, nascendo assim a famosa lista de Réveillon contendo desafios, por vezes, novos ou protelados há tempos.

Emagrecer ou ganhar massa na academia, ler mais, passar mais tempo com amigos e família ao invés do trabalho, são alguns exemplos das metas que migram todos os anos de lista para lista. E surge a pergunta: De que adianta fazer essa listagem se não é possível concretizar tudo que foi estabelecido?

Há que diga que a lista de réveillon é apenas mais um dos rituais de fim de ano, mas existe aqueles que afirmam que a lista ajuda a guiar os próximos passos. Eu admito que faço a retrospectiva, penso, repenso e avalio meu ano, e estabeleço as metas pós fim de ano. Percebi que as listas me ajudam a não perder o foco, lembrar a cada dia das metas que estabeleci, e no final verificar em que fui bem sucedido.

Questionar a eficácia dessa lista é algo delicado, já que o resultado depende diretamente do engajamento e a crença de quem a criou. Acredito de fazer um lembrete e deixá-lo próximo dos olhos ajuda a não perder o foco em meio a distrações e aos problemas do cotidiano. Penso ainda que é importante dividir as metas estabelecidas em três grupos - este número é apenas uma sugestão pessoal, o primeiro com as metas com prioridade zero, o segundo aquelas que podem ser realizadas a médio e longo prazo, e por fim as que foram negligenciadas e empurradas ano após ano.

É essencial saber o que incluir nessa lista, lembrando sempre é preciso estabelecer metas reais e fugir das utopias, respeitar a sequência de prioridades da lista, além de estar munido de muita força de vontade de cumprir tudo o que foi estabelecido. Uma dica é fazer uma anotação e deixá-la em um lugar onde seja possível reler a lista a cada manhã, de forma que o lembrete sirva de incentivo.


A minha lista tem entre os pontos principais, ter mais qualidade de vida, ler mais, assistir mais filmes, visitar aqueles que amo, dispor de tempo para mim e ao ócio criativo, aumentar o número de postagens no blog, e realizar objetivos dos campos profissional e pessoal.


Fato que as listas, sejam de réveillon, mercado, ou simples lembretes, servem de bússola para guiar os próximos passos. E que venha o ano novo!


Silas Macedo

domingo, 24 de agosto de 2014

Fazendo a íntima

"Fazer a íntima" é uma expressão utilizada atualmente para indicar pessoas que se aproximam de outras tentando estabelecer uma relação de intimidade que não existe.  A razão que leva as "íntimas" a demonstrar um laço fake podem ser muitos, mas, em geral surgem por questões de interesse escusos, ou ainda nos casos em que a pessoa - por vezes um recém conhecido - ache que já é alguém íntimo. Sabe se lá porque...

Recentemente alguns incidentes com pessoas que se portam desta maneira me fizeram refletir sobre essa postura e, principalmente o que é intimidade e como ela se estabelece. 

Para exemplificar, vou citar duas situações que contextualizam a pseudo-intimidade. A primeira se trata de um garoto que conheci no trabalho, na relação de educação bom dia - boa tarde, que me encontrou ao acaso em um evento social que eu organizava, e a partir deste momento a suposta relação de amizade surgiu. Oi? Nos eventos seguintes, lá estava ele "fazendo a íntima", acenando, me chamando, conversando como se fosse um amigo de longa data. Estranhei a situação e observei. Há quem diga que isso é networking, eu chamo de equívoco. 

Já a segunda, por diversas vezes, ao conhecer pessoas  novas, aprendi que devemos tratá-las com educação, respeito e simpatia. Fato que gera empatia imediata. Porém, o problema surge aí, quando os novos conhecidos não percebem a fragilidade das relações e a linha tênue que divide a intimidade da total estranheza. 

Penso que essa situação acontece principalmente por motivos ligados a carência afetiva e a total falta de senso. Há alguns dias um conhecido do meio profissional insistiu em fazer uma piada sem graça a meu respeito e, mesmo após a minha clara mudança de expressão e negativa, alertando que o limite havia sido ultrapassado, ele insistiu a brincadeira por cinco vezes seguidas.  Ele só parou quando fui ríspido e afirmei que não lhe tinha dado nenhuma intimidade para aquele tipo de piada. Como uma criança sem limites, ele disse que jamais falaria comigo novamente. Pensei: Que alívio! Terei menos dores de cabeça.

A intimidade é algo simples, que se estabelece por meio da afinidade, fortalecida com a amizade e a confiança, e perpetuada com o tempo. Sinceramente, acredito que a base para ela é bom senso e maturidade dos envolvidos. Não espere ser íntimo de alguém da noite para o dia. E falar mais sobre isso é redundante. Intimidade é para poucos.

Silas Macedo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sorte nas asas amarelas

Esses dias a caminho de um compromisso, parado no trânsito intenso de São Paulo, vi uma pequena borboleta amarela voando tranquilamente em meio ao caos, batendo suas asas e dançando sutilmente sobre o capô do meu carro.

Imediatamente fui remetido a lembranças da infância, das quais estavam escondidas em algum lugar do passado, e agora haviam emergido com a a mesma vivacidade de outrora. Recordei a importância de ver uma borboleta amarela...

Quando criança um amigo, na época o considerava o melhor, me ensinou que sua família acredita que ao ver uma borboleta amarela voando perto de nós era um sinal de sorte. Lembro que todas as vezes quando avistávamos os insetos era um momento eufórico, corríamos atrás delas, a contemplávamos, e fazíamos os devidos desejos do dia. Para dar credibilidade ao ritual, o pai deste amigo - um exímio pintor de quadros, artista visionário e homem do bem - afirmava a veracidade do rito, todas as vezes que nos levava para fazer trilhas e caminhadas no Horto Florestal, parque localizado na região Norte de São Paulo.

O interessante é que o tempo passa e rituais como este se perpetuam na vida. E até hoje ao ver uma borboleta amarela voando perto de mim, eu paro, contemplo, e faço meu pedido. O pai desse amigo afirmava que o mundo, e o próprio Deus, mandam sinais positivos, lampejos de luz, como um sorriso do criador para nos lembrar que tudo dará certo. E ainda que não passe de uma crença sem fundamento, ao acreditar que a sorte passa por nós, penso que podemos atraí-la por meio da Lei da Atração - afirma que os pensamentos das pessoas (tanto conscientes quanto inconscientes) ditam a realidade de suas vidas.

Lembrei ainda que haviam outros sinais; a esperança (tipo de grilo verde) traz sorte a casa que visita, o beija-flor traz boas novas, o gato avisa visita quando lava o focinho, e a mariposa negra avisa que morte está próxima, e como não lembrar da sorte trazida pela simpática joaninha.

Acredito nesses sinais, e creio que muitas pessoas pelo mundo também acreditem. Em última análise, acho válido ensinar esses rituais a todos, principalmente as crianças, para que coisas simples, como o voo de borboletas amarelas, possam resgatar pensamentos bons. E que possamos sempre nos permitir ser acometidos pela sorte e pelo o que há de bom na vida.

Silas Macedo



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Abramos caminho para toda forma de amor. Até mesmo a tal bissexualidade

Hoje em casa curtindo folga devido a uma gripe que além de me deixar afônico, me fez sentir como se um caminhão tivesse me atropelado, ainda me permitiu assistir a novela das 21h - Império - exibida pela rede Globo, ao lado de minha irmã. Admito que a trama está legal, prende a atenção do telespectador, temas atuais, qualidade de imagem, etc., mas o que mais chamou a minha atenção foi uma cena rápida com os atores José Mayer e Susy Rêgo. 

Ela interpreta Beatriz esposa do cerimonialista Cláudio que vivem em uma família "normal", bem sucedida, com filhos, e que convive com a bissexualidade dele, ainda que as escuras. Uma cena que imediatamente me fez refletir sobre a situação... Quando falamos de bissexualidade, seja no meio heterossexual ou LGBT, é comum ouvir opiniões preconceituosas e incompreensivas do tipo: "falta de vergonha, impossível amar um homem e uma mulher, teria o dobro de cíumes, bi é o mesmo que biscate", entre outras pérolas.

Acredito que não podemos ser maniqueístas, não há um certo ou errado absoluto na vida, principalmente nas questões afetivas. No diálogo da cena, as personagens recordavam como se conheceram, como construíram o relacionamento, e fortaleceram o amor. Cláudio então pergunta a ela o que poderia acontecer caso o segredo dele fosse revelado perante a sociedade. Na cena ele demonstra medo de ter a moral abalada, e a companheira de forma veemente diz que ela estará ao lado dele até o final da vida fazendo valer os votos de amor que fizeram quando se casaram. Fiquei atônico!

Quantas pessoas seriam capazes de viver algo assim? É amor? Existe um modelo do que é ou deveria ser amor? Sentimento real, comodismo ou convenção social?

Recentemente ouvi críticas e comentários acerca de um conhecido casado com uma mulher, supostamente feliz, homossexual inconsciente (se que é que isso é possível), e que vive uma relação supostamente igual a dos personagens da trama de Aguinaldo Silva. O que dizer? Será que alguém fora dessa relação tenha o real direito de questionar? Embora façamos isso a todo instante. 

Afetos e desejos da carne necessitam estar alinhados para serem considerados amor? Por que insistimos em classificar um amor como algo imutável, formatado e entalado? Creio que a nossa incompreensão das inúmeras manifestações do amor, como a divisão do prisma em raios de luzes coloridas, remete a humanidade ainda a ignorância.

Sinceramente, gostei de ver a abordagem sobre amor e bissexualidade em um produto que atinge diretamente aos brasileiros, seja para mero entretenimento, crítica ou reflexão. Afinal uma ideia lançada é semente plantada para o futuro. Espero que nós, humanidade, percebamos que toda forma de amor é válida, pais e filhos, irmãos, amigos, gays, heteros, bissexuais, ou qualquer denominação que exista ou venha existir.

O amor, só é pleno, quando vivido e colocado a prova, longe da zona de conforto de uma perfeição utópica e vivida apenas nos antigos contos de fadas. O que fazer para continuar a amar aquele que buscou um novo amor, uma filha lésbica, um amigo gay, um genro negro, uma familiar deficiente, um ex marido bissexual? 

Sem dúvida, uma missão árdua, mas não impossível. Sem nenhuma fórmula mágica, mas que carece apenas boa vontade, paciência e disposição para praticar o tal amor.

Silas Macedo