terça-feira, 9 de junho de 2015

Tempo para o livro, o vestido e o amor

Há tempo para todas as coisas... Para nascer, crescer, morrer. Arar a terra, lançar as sementes, cultivar, ver os primeiros brotos, colher os frutos e fazer a poda. Uma lei universal, conhecida pelos antigos e sábios, compartilhada a cada geração com o o intuito de tornar a vida mais leve.

E quem consegue colocar em prática esse ensinamento? Diante do imediatismo dos nossos dias, a pressa desregrada do agora, a ânsia em ter tudo pronto pra ontem, geram uma ansiedade gigante capaz de desestabilizar e acabar com a saúde de qualquer ser humano. 

Discuti o assunto com um grupo de amigos que, assim como eu, têm a impressão que os ponteiros do relógio correm mais rápido que o normal, impulsionados pela cultura do "quero agora" somado a Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA) - conceito criado pelo psiquiatra Augusto Cury que define a hiperconstrução de pensamentos, numa velocidade tão alta que estressa e desgasta o cérebro. 

Em nossa conversa, refletimos como a ansiedade nos atinge, e quais os caminhos para superar esse martírio moderno. Em geral, optamos por aprender na dor, após muitas crises de ansiedade, noites mal dormidas, falta de apetite ou vontade compulsiva de comer, gastrites, e até úlceras. Para cada um, a experiência pessoal, seja escrever o primeiro livro, encontrar o vestido de noiva ideal, lançar o projeto de uma revista, e entender o tempo de maturação do amor, requer o aprendizado de respeitar e colocar em prática o tempo certo para todas as coisas. 

Atelier que fará o vestido ideal - Foto: Silas Macedo
Um dos amigos, hoje um jovem e promissor escritor, sofreu ansioso ao pensar em seu primeiro livro em 2011, o escreveu em 2012, e o lançou em 2013. Segundo ele, foi o tempo certo de amadurecimento das ideias, e o lançamento da publicação aconteceu na melhor data. A outra, ansiosa por achar o vestido ideal para o casamento - importante rito de passagem - comprou o errado na primeira loja que entrou. Arrependida, respeitou os desígnios do tempo, e após um período, encontrou exatamente o que buscava, com direito aos mimos e todo o respeito que as noivas merecem. O projeto da revista, almejado para março, concretizou-se em junho. E o amor tão aguardado, aconteceu, após entender que o ele é uma via de mão dupla, que depende da disposição e o tempo de cada um.

Ao final, o consenso de que o conselho dos sábios, mestres e filósofos em respeitar o tempo de todas as coisas, sempre esteve certo, e quando praticado é a melhor forma de tornar a vida mais calma e plena. Um exercício difícil, a ser aplicado diariamente.

Silas Macedo

domingo, 31 de maio de 2015

Adversidade, Formiga ou Monstro Gigante? Depende do ponto de vista

Tudo depende do ponto de vista! A vida nos dá diariamente a oportunidade de encará-la com mais positividade. Diante das adversidades, sejam elas, a perda de um emprego, o término de um relacionamento, a morte de um ente querido, e até a picada de uma formiga no dedão do pé, a diferença é como lidar com elas. 

Fato que um problema é sempre um problema, mas deve ser encarado como desafio e, principalmente, como oportunidade de aprendizado. Mas como fazer isso? O primeiro passo é tirar todas as lentes de aumento - geralmente fazemos uso delas, tornando a situação ainda mais dramática - do foco da situação. Exemplo simples, ao olhar uma pequena formiga com este tipo de lente, ela vai parecer um monstro gigante capaz de devorar tudo e todos. É necessário encarar a situação de forma que ela realmente é, nem mais e nem menos.

Perdi meu emprego "estável", e não sei o que fazer! Não está aí a oportunidade de fazer algo novo? Mudar de área, fazer algo mais prazeroso. Terminei meu relacionamento, e estou curtindo fossa! Será que o relacionamento estava realmente bem? Um ente querido desencarnou, a dor e a saudade são gigantes, mas faz parte do ciclo da vida, e é um aprendizado necessário a todos.

O mote de uma adversidade é que ela nos tira da zona de conforto. E quem gosta de ser incomodado? É tão bom estar quieto e aconchegado. Mas a vida é movimento. Arrisco a dizer que ela detesta pó, energia parada, e todas as quinquilharias que nos apegamos sem necessidade. A vida vem para mexer, nos levar adiante.

Quem nunca conviveu com pessoas que reclamam o tempo todo? Ao lado delas, a energia baixa, e os fardos parecem ser mais peso do que realmente são. Há uma clara diferença de comportamento quando somos acometidos por qualquer adversidade. Afinal, há sempre o susto, o tempo para pegarmos fôlego, raciocinar, e seguir em frente. Por isso, uma atitude positiva sempre faz a diferença.

Há quem diga: Falar é fácil, quero ver é colocar na prática o tal positivismo. Advirto que não é fácil, mas o hábito faz a diferença. Quando for tomado por um pensamento ou atitude negativa, se policie, mude os polos, e aproveite o melhor da vida.

Silas Macedo

domingo, 26 de abril de 2015

Água Saborizada: Chique, Leve e Gostosa

Já tinha provado as águas saborizadas em alguns restaurantes e eventos, os líquidos vistosos que mesclam a transparência e a leveza da água, com os sabores sutis de ervas, frutas e legumes. O primeiro contato é o visual, bonito, salta aos olhos. Depois o olfato, por meio do leve aroma que antecede a gustação. E por fim, ao beber, é fácil perceber porque as águas saborizadas fazem tanto sucesso. Gostosas, leves e saudáveis!

Depois do primeiro contato, somado a necessidade de optar por bebidas mais saudáveis e diminuir o consumo de refrigerante e sucos industrializados, optei por conhecer um poucos sobre as águas saborizadas - o nome dado a esta bebida pode variar, alguns restaurantes especializados ou sites de gastronomia e saúde usam flavorizada ou aromatizada - e, principalmente, começar a bebe-la.

A primeira experiência foi simples, fiz duas opções, uma com hortelã e limão e outra com manjericão (colhido no quintal de casa). Coloquei a primeira em uma jarra e a segunda em uma garrafa de vidro, ambas com água gelada, para repousar na geladeira. Antes da refeição, coloquei as bebidas sobre a mesa, causando uma impressão que misturava surpresa e desconfiança. Com perguntas nas entrelinhas como: Bonito, mas será gostoso?

Para a surpresa de todos, as águas ficam super saborosas! Desde então, tenho diariamente optado por elas, sucos naturais e chás ao invés de bebidas industrializadas, durante as refeições, lanches ou simplesmente para matar a sede e hidratar o corpo.

Já testei algumas e quero provar outras. Acredito que para fazer uma boa água saborizada, basta ter bom gostos e ser um apreciador de sabores e aromas. A dica é misturar no máximo dois itens a água, porque mais do que isso perde-se as identidades gustativas e há o risco de virar uma bebida "tutti-fruti". Outro quesito importante, é lembrar que água saborizada não é suco ralo e muito menos uma bebida insossa, por isso é importante calcular bem a medida de água e ingredientes adicionados.

As águas saborizadas além de refrescantes e bonitas aos olhos também são fonte de vitaminas, não têm açucares, e tem propriedades antioxidantes, diuréticas, e desintoxicantes. Pode-se usar laranja, morango, manga, carambola, romã, abacaxi, hortelã, limão, pepino, manjericão, capim-limão, canela em pau, anis-estrelado, cravo, gengibre e rosas (use sempre pétalas da mesma cor).

Separei algumas sugestões associados a suas benfeitorias:

* Água com laranja e alecrim - rico em ferro, cálcio, vitamina E e B6, betacaroteno, diurético e antioxidante e antiinflamatório. Contribui com o funcionamento do fígado, reduz açucares no sangue, e alivia sintomas da TPM;

* Água com abacaxi e gengibre - digestivo, estimula o metabolismo, e alivia gazes e azia;

* Água com pepino, limão e hortelã - com funções detox (desintoxicante); 

* Água com romã e alecrim - antioxidante, combate o colesterol LDL ("ruim"), e devido a adição da romã combate a formação de coágulos no sangue.

Espero que gostem!

Silas Macedo

domingo, 19 de abril de 2015

Navegar é preciso, mas sem excesso de bagagem

Navegar é preciso! A frase de grandes navegadores adotada pelo poeta Fernando Pessoa é a que melhor define o desejo de ampliar horizontes, seja por mudanças ou viagens. Toda vez que almejamos mudar uma situação em nossas vidas, romper com algo que não nos faz bem, um emprego, um relacionamento, ou qualquer outra coisa, é necessário se desapegar de sentimentos, comportamentos, e tudo que possa ser considerado como excesso de bagagem.

Assim como nas viagens que é imprescindível não levar bagagens demais, pelo simples de fato de não pesar durante a caminhada e deixar espaço livre nas malas para ser preenchido como presentes, memórias e tudo de bom que a viagem possa proporcionar. Também deve ser as mudanças, ou então, por escolha, pagar pelo excesso de bagagem e continuar com os mesmos cacarecos na mala.

Viajar ou abandonar algo que não queremos em nossas vidas requer o exercício do desapego. É preciso mudar de casa e, principalmente, de comportamentos e forma de pensar. Não adianta ansiar por novos ares e mudanças e levar consigo todos os hábitos ou toda a bagagem velha e mofada de sempre. Surge aí o desafio! Como praticar o desapego? A resposta é redundante, pela prática. Ninguém muda um hábito a não ser que persista. 

Sempre observo pessoas que desejam por mudanças, mas nunca estão dispostos a ela. Permanecendo em um ciclo vicioso, repetindo erros, dores, pensamentos, em altos e baixos emocionais. Por isso, ter consciência do que ser quer e onde chegar é o primeiro passo. Não adianta buscar o novo, sem saber ou ao menos vislumbrar que novo é esse. E se nesse processo de mudança, percebemos que não sabemos onde queremos chegar, nada de crises. O primeiro passo para encontrar o caminho é admitir que está perdido.

Sem pressa e nenhuma culpa, organize as ideias, encontre o caminho, estipule a rota, desapegue de tudo que não serve mais, faça as malas - praticando o desapego do excesso de bagagens, abandone as âncoras e raízes mortas, e siga rumo a novos mares ou estradas. E esteja pronto para abastecer as energias e arejar a alma.

E lembre-se: Navegar é preciso!

Silas Macedo

sábado, 11 de abril de 2015

Da sexualidade clandestina aos armários abertos

Falar sobre sexualidade foi por muito tempo algo proibido, sexo somente pra reproduzir, debaixo dos lençóis e na calada da noite. Mas para alívio de uma parte pensante da humanidade, as coisas estão mudando gradativamente, mesmo diante da resistência retrógrada de alguns. Ao olhar para a história é possível acompanhar as conquistas de homens e mulheres ao longo do tempo para viver seu sexo e sua individualidade.

E, nos últimos anos, o embate entre homossexuais - em todas as suas vertentes - e os heterossexuais - considerados "normais" - tem se tornado mais forte, embora velado. De um lado, um grupo aparentemente crescente, engajado, segue atento a todos os tipos de violência que sofreu e ainda sofre, e no outro, na contramão, um grupo formado por homens e mulheres conservadores, integrantes de mundo inconsciente, longe da empatia e do respeito, felizes em empunhar a bandeira de valores equivocados e distorcidos. 

Um desses grupos acompanho de perto, e isso não é novidade para ninguém. E, por este motivo, tenho ouvido relatos que começam com homens e mulheres que atualmente tem em média 50 e poucos anos, passando por quarentões, balzaquianos, jovens de vinte anos, até a Geração Y.

A começar pela história de um homem que apenas aos 60 anos decidiu viver sua homossexualidade, após um longo casamento heterossexual "feliz" com filhos, subordinado a normas e convenções. Segundo ele, a decisão resultou em uma avalanche de reações adversas, mas, principalmente, sua paz de espírito em não viver mais na clandestinidade e, a possibilidade de viver paixões tão intensas quantos as juvenis. 

Outro relato, é de um homem de 50 e poucos anos, que entendeu e decidiu viver sua sexualidade  aos 28 anos, no início da década de 80, onde ser gay era algo incompreensível, associado diretamente a AIDS, e as travestis e transformistas apresentadas nos programas do tio Silvio Santos. Ele me contou que, assim com tantos, ele tentou o suicídio, por achar naquele momento que a morte seria melhor que ser gay. Passada a crise, ele aprendeu a viver sua sexualidade, em meio a fantasmas, na calada da noite, juntos de outros como ele.  

Já os com 40 anos, tiveram crises parecidas, viveram sua sexualidade em meio a punks, góticos, fashionistas, sem nunca sair assumidademente do armário. Um deles em especial, me disse que nunca superou as piadinhas de mau gosto que teve de ouvir calado, e o medo constante de sofrer violências por um crime que não existe, e sem possibilidade de defesa. Dois dos homens e uma mulher dessas gerações, assim como tantos outros, tem um único pesar, jamais terem tido a coragem de assumir sua homossexualidade, principalmente, aos familiares, e hoje viverem ainda fadados à clandestinidade.

"Imagine levar seu sobrinho a um campeonato de futebol na escola, a convite dele, e no percurso vê-lo fazer piadas ofensivas a um garoto gay e ter de ficar calado. Qual seria a reação dele ao descobrir que o tio mais querido também é gay?" - desabafou.

As gerações passam, mas alguns embates são os mesmos. Ouvi relatos de amigos gays e lésbicas de 20 e poucos anos, que como as gerações anteriores tiveram medo, passaram por crises, mas decidiram viver sua sexualidade sem mentiras, a começar em casa. O susto é inevitável, afinal nenhum pai e mãe concebeu os filhos para serem "diferentes", para não dizer gays. Mas será que esses filhos gays, se pudessem optar, escolheriam a homossexualidade ou uma vida dita como normal? 

Entre mortos e feridos, gradualmente, o choque de realidade daqueles que não foram educados para entender a homossexualidade vai se apaziguando, trazendo luz e entendimento por meio do chamado amor incondicional. Como deixar de amar um filho ou filha mesmo que ele seja gay ou lésbica? Ainda que haja pais que prefiram ter filhos ladrões a homossexuais. "Minha mãe hoje aceita, me respeita, e ainda recebe minhas namoradas em casa. No início não foi fácil, mas valeu a pena." - contou uma amiga gay.

E, por fim, a chamada Geração Y, que ao meu ver nasce desprovida de preconceitos e disposta a viver de forma mais fácil. Conheço diversos adolescentes, conscientes de si, que apenas apresentaram seus namorados e namoradas aos pais e a família de forma simples e direta. "Aceita mãe que dói menos!" - disse uma delas. "Pai sou gay. Me passa o café." - falou outro. Aos pais, restou dar o primeiro passo rumo a novos aprendizados. 

A escala dessas gerações mostra uma mudança de comportamento que pode nos conduzir para uma sociedade capaz de respeitar e conviver de forma harmônica com as diferenças. Sinceramente, espero que a cada dia mais pessoas possam deixar de viver sua sexualidade na clandestinidade, abandonando a vida claustrofóbica dentro dos armários. Creio que este é um lampejo de luz, quase uma nova Renascença, em meio ao período sombrio que vivemos e convivemos com tantos boçais bolsonaros.

Silas Macedo

sábado, 4 de abril de 2015

Bora Malhar o Judas

Vamos malhar o Judas! Porque hoje é sábado de Aleluia! Era esse convite que recebi durante anos de minha infância no dia que antecedia a Páscoa. Acordava em meio a empolgação de buscar trapos, sapatos e roupas velhas para ajudar na confecção no boneco de Judas Iscariot - o traidor de Jesus Cristo, que se suicidou. A criançada toda se reunia e aguardava ansiosamente para bater no traidor do salvador. Me lembro que havia competições entre ruas e bairros para saber qual era o melhor Judas. E, pontualmente, ao meio dia começavam as pauladas, chutes, xingamentos e, por fim, atear fogo ao que sobrava.

Foto: Michelle Farias \ G1
Quando pequeno participava da farra, sem entender ao certo o motivo para o linchamento, acredito que devido a bagunça da criançada. Porém, as vezes que questionei o real motivo de malhar o Judas, recebia respostas enfáticas afirmando que assim que deveriam ser tratados os traidores, ainda mais o de Jesus. E reforçado pelos ensinamentos ingênuos e cheios de fé de minha avó, envoltos a dogmas católicos, "aceitei" aquele rito popular.

O tempo passou e, hoje recordei com saudosismo dessa ápoca, buscando notícias se ainda malhavam o Judas por este enorme País. Para minha surpresa, a brincadeira acontece nos dias de hoje. Uma tradição forte nas cidades do interior do Brasil, mas que aconteceu também nas capitais como protesto, dando rosto de políticos brasileiros aos bonecos.

O que questiono aqui não é a tradição popular, mas os valores por trás da ação. Incentivar e ensinar que deve-se linchar e matar alguém, independente do motivo, é algo que me assusta. Há quem defenda que se trata apenas de uma brincadeira, uma catarse coletiva, ou que estou intelectualizando o assunto. Mas, sinceramente, vejo aí uma forma de incitação a violência. Principalmente porque a maioria das pessoas, neste caso como crianças e jovens, não tem a natureza de questionar o que aprendem, e outras têm impulsos e desejos de  violência e barbárie motivados por frustrações e motivos diversos.

Uma criança pode no futuro se tornar um homem violento e defender que atos de violência sejam considerados normais por causa da malhação do Judas? Não acredito que haja essa interferência direta, mas que ela possa potencializar tendências já existentes nesse ser humano. Além disso, será que devemos mesmo malhar o Judas no dia que antecede a Páscoa? Um período de reflexão, renovação e perdão? A maioria das religiões cristãs pregam que Deus é amor e perdoa os pecados da humanidade, e ensinou por meio de seu primogênito que devemos amar e perdoar o próximo, inclusive nossos inimigos. Então por que malhar o Judas?

Partindo desta pergunta, é necessário questionar quais ensinamentos queremos transmitir aos nossos sucessores. Diretrizes que os ajudem a se tornar pessoas conscientes, seres pensantes, capazes de compreender o próximo e discernir o real motivo das coisas antes de tomar uma atitude impensada? Ou vamos preferir que eles continuem repetindo atos de barbárie que há tempos deveriam ter sidos extinguidos da humanidade?

Prefiro optar que devemos malhar velhos conceitos e renascer na páscoa do esclarecimento e mudança de atitudes.

Silas Macedo

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Maternidade à loucura

Há dias que devemos ficar atentos sobre assuntos e situações do cotidiano que trazem mensagens que nos remetem a uma reflexão. Tudo começou com uma notícia no rádio pela manhã que relatava sobre um recém-nascido que foi encontrado por um pedreiro em um cemitério da cidade de Lages, em Santa Catarina. Ao ouvir a notícia, imediatamente lembrei da vez que fiz uma reportagem onde um bebê foi encontrado em um bairro de Guarulhos em uma lixeira pelos coletores de lixo pouco antes de lançarem os desejos no caminhão, fato que poupo a vida da criança. 

No momento em questionei os motivos que levam uma mãe a desejar a morte do próprio filho, rompendo com as leis do sangue e do amor incondicional, a repórter Rachel Sheherazade - a quem tenho grande admiração profissional - que dava a notícia também questionou o fato e demonstrou claramente sua revolta. Ela fez questão de citar que mesmo nos casos de depressão pós parto - cujo fato da mãe querer matar o filho é algo normal, sensação causada pelas mudanças causadas pela maternidade - atos de violência ou infanticídio não são tolerados. Particularmente, acredito que essa explicação comportamental ajuda a compreender, mas não justificar barbáries desse tipo.

A jornalista lembrou ainda que no período do Brasil colônia existia a "Roda dos Expostos", local que funcionava em conventos e hospitais para abrigar crianças rejeitadas pelas mães. Fato histórico que nos faz recordar que a adoção é um ato de amor, dando a oportunidade de vida a criança. E que sentimentos acometem um mãe que esquece da possibilidade de adoção? Decidindo pela morte do ser que gerou.

No mesmo dia foi noticiado no Jornal Hoje (JH) da Rede Globo a reportagem sobre o número crescente de pessoas que desaparecem por ano no Brasil, e o trabalho realizado pelo projeto "Mães da Sé" - criado por uma mãe que teve a filha desaparecida - que ajuda na localização dos desaparecidos. Impossível não lembrar de uma reportagem cujo tema me permitiu entrevistar uma mãe que há anos procura o filho e, desde então deixa o quarto do desaparecido intacto na esperança do regresso dele. Que esperança e amor incondicional é esse que nutre a esperança de mães que sonham com o reencontro com seus filhos?

No início da noite, minhas indagações tiveram um exemplo dos sentimentos gerados pela maternidade, quiça o tal amor, ao ser abordado por uma mulher bem vestida, aparentando pouco mais de cinquenta anos, e uma boa condição financeira, que buscava encontrar o filho. Ela me abordou educadamente, pedindo informações sobre um suposto homem. Após alguns minutos de papo confuso, percebi nitidamente o desiquilíbrio emocional e psicológico daquela mulher. Lhe dediquei a atenção devida, mas ela decidiu ir embora.
Amor de mãe - Quais o limites entre loucura e sanidade?

Mas para minha surpresa, ela voltou para falar comigo devido a confiança devotada a mim. Aquela mãe estava com papéis com cópias da imagem de um homem negro - Barack Obama - que ela descrevia ser seu filho. "Meu filho deve ter hoje a idade deste homem bonito. O pai dele era negro, olhe as semelhanças nos traços da boca e o nariz dele. São iguais aos meus", afirmava. Quem olhava de longe, de forma superficial e desatenta, poderia achar a situação engraçada. Eu mesmo inicialmente tive vontade de rir, mas ao ver nos olhos daquela mulher o desejo insano de encontrar o filho, me enchi de compaixão.

Ouvi atento o relato que ela explicava que o filho foi retirado dela há anos pelo antigo companheiro. E que ela ainda o encontraria - mesmo que idealizado - até o final da vida. Só pude concordar e desejar a ela que de alguma forma seus anseios se concretizassem. Após o desabafo, ela se despediu, pegou suas malas e se misturou as muitas pessoas que transitam pelo Aeroporto Internacional de Guarulhos.

Inevitável não tentar entender os sentimentos que permeiam o universo da maternidade, desde o desejo de morte da cria, a esperança de encontrar o filho perdido, até o chamado amor incondicional. 

Talvez só as próprias mães, ou nem mesmo elas tenham total consciência dos caminhos tênues da maternidade à loucura. 

Silas Macedo

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Deficiência de que?

Esses dias fui surpreendido por uma situação delicada em relação a uma pessoa deficiente com mobilidade reduzida. Estava com uma amiga - vale ressaltar bem humana, respeitosa e consciente – em pleno Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando caminhando pelo saguão, ela resolveu usar o banheiro.

Eu fui ao banheiro masculino, e na sequência fui aguardá-la na porta do feminino, quando me deparei com uma cadeirante, simpática, com aparente trinta anos, que esperava para usar o sanitário para portadores de deficiência ou mobilidade reduzida.

Aguardei minha amiga e, para minha surpresa, ela saiu do banheiro reservado aos deficientes. Logo perguntei, e fui esclarecido que ela optou por usar aquele banheiro porque o coletivo estava lotado. Algumas risadas, até quando a cadeirante começou a proferir palavras agressivas, afirmando que minha amiga havia desrespeitado o direito dos cadeirantes em usar um banheiro exclusivo.

Símbolo Internacional de Acesso
Ficamos atônitos e perplexos com a avalanche de ataques. Nossa reação foi imediatamente pedir desculpas, e logo explicar a situação. Mas ainda sim ela repetia insistentemente o mesmo discurso: “Você acha que é melhor do que eu? Que pode usar o banheiro dos deficientes? Quem você pensa que é para me privar desse direito?”

Fiquei tranquilo, tentei acalmar os ânimos e explicar novamente o ocorrido, mas ela apenas repetia as mesmas palavras, se recusando a ouvir. Nitidamente vi um ser humano frustrado tentando projetar, justificar ou apaziguar suas frustrações as lançando em nós. Sem dúvida,  uma válvula de escape!

Sinceramente, entendo que há situações que uso do banheiro exclusivo não deva ser usado, por exemplo quando o cidadão usa o sanitário para deficientes pelo simples fato de dispor de mais espaço e permitir fazer qualquer coisa nele, desde se maquiar ou namorar.

Mas auto lá! Tudo é questão de bom senso, já que minha amiga usou o sanitário por nos máximo três minutos. Alguns municípios não têm uma legislação específica sobre o tema, mas a questão é que esses banheiros podem ser usados por qualquer cidadão na falta de um portador de deficiência. Assim como os assentos nos coletivos reservados para gestantes, idosos e deficientes.

A pauta deste incidente remete a reflexão sobre o uso desses direitos, englobando bom senso e respeito ao próximo, mas também a reação das pessoas. Neste caso, a cadeirante poderia ter reclamado ou informado educadamente a necessidade do uso exclusivo do banheiro, mas ela preferiu lançar suas frustrações no próximo. Fato que fez com que eu e minha amiga nos afastássemos. Nós reservando de receber o peso da frustração dela, mesmo porque ela seria incapaz de ouvir qualquer argumento ou desculpas naquele momento.

Finalizo questionando: Deficiência de que? Bom senso? Educação? Falta de informação? Empatia? Ou apenas deficiência física? 

Silas Macedo

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Lista de Réveillon

Com a chegada do Réveillon é inevitável não fazer uma retrospectiva sobre o que aconteceu no último ano. Recordar bons e maus momentos, erros e acertos, e poder fazer um balanço com a intenção de fechar sempre com saldo positivo. Na sequência é comum estabelecer as metas para o ano novo, nascendo assim a famosa lista de Réveillon contendo desafios, por vezes, novos ou protelados há tempos.

Emagrecer ou ganhar massa na academia, ler mais, passar mais tempo com amigos e família ao invés do trabalho, são alguns exemplos das metas que migram todos os anos de lista para lista. E surge a pergunta: De que adianta fazer essa listagem se não é possível concretizar tudo que foi estabelecido?

Há que diga que a lista de réveillon é apenas mais um dos rituais de fim de ano, mas existe aqueles que afirmam que a lista ajuda a guiar os próximos passos. Eu admito que faço a retrospectiva, penso, repenso e avalio meu ano, e estabeleço as metas pós fim de ano. Percebi que as listas me ajudam a não perder o foco, lembrar a cada dia das metas que estabeleci, e no final verificar em que fui bem sucedido.

Questionar a eficácia dessa lista é algo delicado, já que o resultado depende diretamente do engajamento e a crença de quem a criou. Acredito de fazer um lembrete e deixá-lo próximo dos olhos ajuda a não perder o foco em meio a distrações e aos problemas do cotidiano. Penso ainda que é importante dividir as metas estabelecidas em três grupos - este número é apenas uma sugestão pessoal, o primeiro com as metas com prioridade zero, o segundo aquelas que podem ser realizadas a médio e longo prazo, e por fim as que foram negligenciadas e empurradas ano após ano.

É essencial saber o que incluir nessa lista, lembrando sempre é preciso estabelecer metas reais e fugir das utopias, respeitar a sequência de prioridades da lista, além de estar munido de muita força de vontade de cumprir tudo o que foi estabelecido. Uma dica é fazer uma anotação e deixá-la em um lugar onde seja possível reler a lista a cada manhã, de forma que o lembrete sirva de incentivo.


A minha lista tem entre os pontos principais, ter mais qualidade de vida, ler mais, assistir mais filmes, visitar aqueles que amo, dispor de tempo para mim e ao ócio criativo, aumentar o número de postagens no blog, e realizar objetivos dos campos profissional e pessoal.


Fato que as listas, sejam de réveillon, mercado, ou simples lembretes, servem de bússola para guiar os próximos passos. E que venha o ano novo!


Silas Macedo

domingo, 24 de agosto de 2014

Fazendo a íntima

"Fazer a íntima" é uma expressão utilizada atualmente para indicar pessoas que se aproximam de outras tentando estabelecer uma relação de intimidade que não existe.  A razão que leva as "íntimas" a demonstrar um laço fake podem ser muitos, mas, em geral surgem por questões de interesse escusos, ou ainda nos casos em que a pessoa - por vezes um recém conhecido - ache que já é alguém íntimo. Sabe se lá porque...

Recentemente alguns incidentes com pessoas que se portam desta maneira me fizeram refletir sobre essa postura e, principalmente o que é intimidade e como ela se estabelece. 

Para exemplificar, vou citar duas situações que contextualizam a pseudo-intimidade. A primeira se trata de um garoto que conheci no trabalho, na relação de educação bom dia - boa tarde, que me encontrou ao acaso em um evento social que eu organizava, e a partir deste momento a suposta relação de amizade surgiu. Oi? Nos eventos seguintes, lá estava ele "fazendo a íntima", acenando, me chamando, conversando como se fosse um amigo de longa data. Estranhei a situação e observei. Há quem diga que isso é networking, eu chamo de equívoco. 

Já a segunda, por diversas vezes, ao conhecer pessoas  novas, aprendi que devemos tratá-las com educação, respeito e simpatia. Fato que gera empatia imediata. Porém, o problema surge aí, quando os novos conhecidos não percebem a fragilidade das relações e a linha tênue que divide a intimidade da total estranheza. 

Penso que essa situação acontece principalmente por motivos ligados a carência afetiva e a total falta de senso. Há alguns dias um conhecido do meio profissional insistiu em fazer uma piada sem graça a meu respeito e, mesmo após a minha clara mudança de expressão e negativa, alertando que o limite havia sido ultrapassado, ele insistiu a brincadeira por cinco vezes seguidas.  Ele só parou quando fui ríspido e afirmei que não lhe tinha dado nenhuma intimidade para aquele tipo de piada. Como uma criança sem limites, ele disse que jamais falaria comigo novamente. Pensei: Que alívio! Terei menos dores de cabeça.

A intimidade é algo simples, que se estabelece por meio da afinidade, fortalecida com a amizade e a confiança, e perpetuada com o tempo. Sinceramente, acredito que a base para ela é bom senso e maturidade dos envolvidos. Não espere ser íntimo de alguém da noite para o dia. E falar mais sobre isso é redundante. Intimidade é para poucos.

Silas Macedo

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Sorte nas asas amarelas

Esses dias a caminho de um compromisso, parado no trânsito intenso de São Paulo, vi uma pequena borboleta amarela voando tranquilamente em meio ao caos, batendo suas asas e dançando sutilmente sobre o capô do meu carro.

Imediatamente fui remetido a lembranças da infância, das quais estavam escondidas em algum lugar do passado, e agora haviam emergido com a a mesma vivacidade de outrora. Recordei a importância de ver uma borboleta amarela...

Quando criança um amigo, na época o considerava o melhor, me ensinou que sua família acredita que ao ver uma borboleta amarela voando perto de nós era um sinal de sorte. Lembro que todas as vezes quando avistávamos os insetos era um momento eufórico, corríamos atrás delas, a contemplávamos, e fazíamos os devidos desejos do dia. Para dar credibilidade ao ritual, o pai deste amigo - um exímio pintor de quadros, artista visionário e homem do bem - afirmava a veracidade do rito, todas as vezes que nos levava para fazer trilhas e caminhadas no Horto Florestal, parque localizado na região Norte de São Paulo.

O interessante é que o tempo passa e rituais como este se perpetuam na vida. E até hoje ao ver uma borboleta amarela voando perto de mim, eu paro, contemplo, e faço meu pedido. O pai desse amigo afirmava que o mundo, e o próprio Deus, mandam sinais positivos, lampejos de luz, como um sorriso do criador para nos lembrar que tudo dará certo. E ainda que não passe de uma crença sem fundamento, ao acreditar que a sorte passa por nós, penso que podemos atraí-la por meio da Lei da Atração - afirma que os pensamentos das pessoas (tanto conscientes quanto inconscientes) ditam a realidade de suas vidas.

Lembrei ainda que haviam outros sinais; a esperança (tipo de grilo verde) traz sorte a casa que visita, o beija-flor traz boas novas, o gato avisa visita quando lava o focinho, e a mariposa negra avisa que morte está próxima, e como não lembrar da sorte trazida pela simpática joaninha.

Acredito nesses sinais, e creio que muitas pessoas pelo mundo também acreditem. Em última análise, acho válido ensinar esses rituais a todos, principalmente as crianças, para que coisas simples, como o voo de borboletas amarelas, possam resgatar pensamentos bons. E que possamos sempre nos permitir ser acometidos pela sorte e pelo o que há de bom na vida.

Silas Macedo



quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Abramos caminho para toda forma de amor. Até mesmo a tal bissexualidade

Hoje em casa curtindo folga devido a uma gripe que além de me deixar afônico, me fez sentir como se um caminhão tivesse me atropelado, ainda me permitiu assistir a novela das 21h - Império - exibida pela rede Globo, ao lado de minha irmã. Admito que a trama está legal, prende a atenção do telespectador, temas atuais, qualidade de imagem, etc., mas o que mais chamou a minha atenção foi uma cena rápida com os atores José Mayer e Susy Rêgo. 

Ela interpreta Beatriz esposa do cerimonialista Cláudio que vivem em uma família "normal", bem sucedida, com filhos, e que convive com a bissexualidade dele, ainda que as escuras. Uma cena que imediatamente me fez refletir sobre a situação... Quando falamos de bissexualidade, seja no meio heterossexual ou LGBT, é comum ouvir opiniões preconceituosas e incompreensivas do tipo: "falta de vergonha, impossível amar um homem e uma mulher, teria o dobro de cíumes, bi é o mesmo que biscate", entre outras pérolas.

Acredito que não podemos ser maniqueístas, não há um certo ou errado absoluto na vida, principalmente nas questões afetivas. No diálogo da cena, as personagens recordavam como se conheceram, como construíram o relacionamento, e fortaleceram o amor. Cláudio então pergunta a ela o que poderia acontecer caso o segredo dele fosse revelado perante a sociedade. Na cena ele demonstra medo de ter a moral abalada, e a companheira de forma veemente diz que ela estará ao lado dele até o final da vida fazendo valer os votos de amor que fizeram quando se casaram. Fiquei atônico!

Quantas pessoas seriam capazes de viver algo assim? É amor? Existe um modelo do que é ou deveria ser amor? Sentimento real, comodismo ou convenção social?

Recentemente ouvi críticas e comentários acerca de um conhecido casado com uma mulher, supostamente feliz, homossexual inconsciente (se que é que isso é possível), e que vive uma relação supostamente igual a dos personagens da trama de Aguinaldo Silva. O que dizer? Será que alguém fora dessa relação tenha o real direito de questionar? Embora façamos isso a todo instante. 

Afetos e desejos da carne necessitam estar alinhados para serem considerados amor? Por que insistimos em classificar um amor como algo imutável, formatado e entalado? Creio que a nossa incompreensão das inúmeras manifestações do amor, como a divisão do prisma em raios de luzes coloridas, remete a humanidade ainda a ignorância.

Sinceramente, gostei de ver a abordagem sobre amor e bissexualidade em um produto que atinge diretamente aos brasileiros, seja para mero entretenimento, crítica ou reflexão. Afinal uma ideia lançada é semente plantada para o futuro. Espero que nós, humanidade, percebamos que toda forma de amor é válida, pais e filhos, irmãos, amigos, gays, heteros, bissexuais, ou qualquer denominação que exista ou venha existir.

O amor, só é pleno, quando vivido e colocado a prova, longe da zona de conforto de uma perfeição utópica e vivida apenas nos antigos contos de fadas. O que fazer para continuar a amar aquele que buscou um novo amor, uma filha lésbica, um amigo gay, um genro negro, uma familiar deficiente, um ex marido bissexual? 

Sem dúvida, uma missão árdua, mas não impossível. Sem nenhuma fórmula mágica, mas que carece apenas boa vontade, paciência e disposição para praticar o tal amor.

Silas Macedo

segunda-feira, 28 de julho de 2014

De repente 30...

De repente 30... Vou me apropriar do título do filme dirigido por Gary Winick, e estrelado Jennifer Garner, para expressar o que sinto neste momento de minha vida. Hoje comemoro mais um aniversário, algo que considero um dádiva, pelo simples fato de amar a vida. Acordar a cada dia, ver a luz, respirar, e desfrutar tudo o que ela nos oferece, incluindo prazeres e dores, é, sem dúvida, um presente do universo (Deus).  

Ao olhar para trás e o momento atual, entendo porque dizem que a vida é um suspiro divino, rápido, único e intenso. O efêmero e o sagrado se misturam no paradigma do cotidiano que mescla a corrida contra o relógio e a rotina, e os momentos que ficam eternizados na tela etérea do tempo. Afirmo isso porque em flashes da memória, posso vislumbrar passagens únicas da infância, adolescência, início da vida adulta até o atual momento balzaquiano. 

E realmente "De repente 30", passou tão rápido... Aos 34 anos - sim, já sou balzaquiano há algum tempo - me percebo mais consciente, fortalecido, mais eu. Faz alguns anos que uma amiga mais velha me disse que quando eu chegasse ao 30 anos, não teria certeza do que iria querer para minha vida, mas teria absoluta certeza do que não iria querer para ela. E de fato, isso aconteceu. Ela tinha razão!

Hoje, após um período nebuloso, permeado por incertezas, hoje sei exatamente quem sou, para onde vou, e o que desejo ou não para a minha vida. Agradeço as alegrias, as dores, acertos e erros, e até o tempo que me encontrei perdido, afinal quando se admite que está perdido é o primeiro passo para encontrar o caminho a ser trilhado. E, também agradeço, a todas as pessoas que estão ou passaram pela minha vida, pois aprendi com cada uma delas, até mesmo aquelas que desejei nunca ter encontrado.

A maturidade chega, despretensiosa e sem pressa, trazendo plenitude, discernimento, cautela e consciência de si. Conversando com uma amiga querida, recordamos os tempos da faculdade, a falta de grana, sonhos, risadas, e os vinhos baratos que tomávamos em uma adega popular de Guarulhos, e comparamos com as pessoas que somos hoje. Assim como nosso paladar que ficou mais apurado, não apreciando mais vinhos ruins, nos tornamos melhores, aprendendo a dar valor ao bom da vida.

E assim como os vinhos, espero a cada ano ficar melhor, viver cada fase, aprender sempre, e retirar a essência da vida. Almejo estar a cada dia mais próximo de mim, daqueles que amo, e de Deus em todas as suas manifestações. Quero continuar a aprender com o ser humano, em todas as suas diferenças, dos mais intelectuais e espiritualizados aos xucros e almas incipientes, podendo escolher quem permanecerá ao meu lado.

Sou naturalmente saudosista, e espero um dia poder rever esta vida como um filme favorito que assistimos num dia de folga frio e chuvoso debaixo das cobertas. De resto, sou apenas gratidão por os quase 12.410 dias vividos. Ao futuro, meus melhores desejos, saúde, afetos verdadeiros cultivados como bons frutos a serem degustados na eternidade, um vida plena, e uma partida tranquila em uma cama quente após um centenário desta existência.

Silas Macedo

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PET ROAD

Essa  cachorrinha foi clicada em um dia ensolarado na praia do Guaraú, extremo litoral Norte de São Paulo. Praia deserta, mar tranquilo, poucas pessoas, e ela desfrutando deste paraíso.

Segundo os moradores do local, e a salva-vidas, a simpática cachorra não tinha nome, vivia livre, com a única preocupação de amamentar os filhotes de vez em quando, e viver a liberdade e o melhor da vida.

Brinquei com ela, corremos pela praia, e mesmo depois de termos ficado lado ao lado contemplando o mar, ela levantou, se aproximou, fez um afago (roçando o focinho em mim), e foi embora sem olhar para trás.

Refleti e percebi, viver a liberdade plena é isso.

Silas Macedo

terça-feira, 6 de maio de 2014

Boato,informação e barbárie

Nesta última segunda-feira (5) o espancamento de uma mulher ganhou destaque nos principais periódicos e telejornais do País. A dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, morreu na manhã desta segunda após ter sido espancada por dezenas de moradores do Guarujá, no litoral de São Paulo, agredida a partir de um boato lançado em uma rede social que afirmava que uma mulher, com supostamente as mesmas características físicas que ela, sequestrava crianças para sacrificá-las em rituais de magia negra.

Ao ler as notícias e assistir as reportagens fiquei estarrecido diante de tanta barbárie. A primeira coisa que pensei foi que voltamos ao tempo das cavernas, perdemos o intelecto e deixamos a animosidade tomar conta de nós. A cena da mulher arrastada por homens, outras mulheres, e ainda crianças, espancada, sangrando, levada como um troféu em meio a risos, e gritos é realmente assustador.

O caso está senso investigado, o site que lançou a informação de forma irresponsável na rede negou os fatos, e se posicionou dizendo que não vai se manifestar com o intuito de não atrapalhar as investigações. Diante disso, inevitável não pensar sobre o processo de evolução ou retrocesso de alguns seres humanos.

O primeiro ponto a ser refletido é sobre a veracidade da informação e, principalmente, a responsabilidade em transmiti-lá. Quanto a imprensa vale lembrar o caso clássico da Escola Base - cujo a vida dos diretores da escola infantil foi destruída após terem sido acusados de abusar das crianças dentro da instituição, o que era falso - que remete os comunicadores sobre a responsabilidade de transmitir uma informação. 

E quanto aqueles que não trabalham com comunicação? Qual a responsabilidade de cada pessoa ao passar uma informação adiante? Será que pensamos e agimos da forma correta ao passar um boato ou notícia adiante? Questionamos a veracidade do fato? E ainda se isso vai ajudar ou prejudicar alguém? Penso que muitos problemas seriam evitados com uma mudança de postura simples, inclusive poupado a vida de Fabiane.

O segundo ponto é sobre a barbárie. Como que direito e baseado em que os agressores desta mãe acharam que poderiam agredi-la até a morte, ainda que ela fosse a tal sequestradora de crianças? Os crimes foram confirmados? Quais as provas? Não é necessário o trabalho de investigação da polícia e a interseção da Justiça? Veredito popular foi o fator decisivo para matar esta mulher de forma tão cruel?

E penso ainda sobre esses homens e mulheres, pais e mães, acompanhado por crianças, filhos ou não, como testemunhas oculares da morte com violência para punir uma "criminosa". Que referência de respeito ao próximo essas crianças terão após terem uma lição como esta? Qual o nível de consciência dessas pessoas? Creio que nenhum, apenas animosidade.

Acredito que muitos dos agressores não queriam apenas "justiça", mas também exteriorizar suas insatisfações diante da vida, frustrações e, acima de tudo, seu ódio e violência, escondidos em comportamentos e sorrisos de pseudo-normalidade. Fatos como este, estão perto de nós, camuflados e esquecidos na rotina e negligência. Há duas semanas, ouvi o relato sobre um homem que foi amarrado em um poste, em pleno meio dia, na Avenida Humberto de Alencar Castelo Branco, em Guarulhos, para apanhar dos moradores do local, após ter sido apanhado tentando roubar um mercadinho do bairro - fato não comprovado.

Espero que este texto nos ajude a refletir sobre como receber uma informação, notícia, boato ou fofoca, e questionar a veracidade e o peso dela, e se devemos repercuti-la. E principalmente, sobre nosso posicionamento diante da vida, e o que cultivamos em nós e no próximo. Violência e ódio ou amor e compreensão? E , quase como uma utopia, espero que notícias como essas não voltem a ser veiculadas porque simplesmente não acontecem mais.


Silas Macedo

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Medida para a competitividade

Hoje tive uma experiência em meu ambiente de trabalho que me fez refletir sobre os parâmetros para o trabalho em grupo e a competitividade dentro dele? Acredito que um dos grandes mistérios da esfinge - decifra-me ou te devoro - é saber qual a medida certa para a competitividade? Como fazer dela algo que estimule o ser humano individualmente ou dentro de um grupo? Como fazer com que ela torne o ambiente saudável e prazeroso, e não algo desestimulante, desgastante e estressante? E ainda mais, como fazer com que a competição seja algo saudável e positivo?

Vamos começar pelo trabalho em equipe para iniciar uma reflexão sobre a competitividade. Em grupos, seja no âmbito corporativo, familiar e, por vezes, na esfera afetiva, é comum sempre contar com a competência do outro - esperar que ele seja capaz de cumprir com suas responsabilidades, empatia e bom senso. Mas a realidade é bem diferente, porque o trabalho em grupo é prejudicado devido a falta de comprometimento, visão do todo, preguiça, egoísmo e uma série de interesses pessoais escusos.  

Ao meu ver, a única forma de resolver o problema é estruturar corretamente este grupo, pensando seu funcionamento, e adequando cada integrante com suas qualidades e peculiaridades com uma peça fundamental no funcionamento da máquina. É necessário que o grupo queira atingir o mesmo resultado - como uma embarcação, onde todos em funções diferentes almejam o mesmo norte. Deve-se levar em conta a motivação individual - quais os motivos pelos quais a pessoa integra este grupo, seja por questões financeiras ou pessoais. 

Neste ponto surge um desafio, como fazer com que a competitividade sirva de combustível fazendo com que a "embarcação" siga rumo ao sucesso? Aprendi de forma empírica que alguns gestores formam grupos heterogêneos e inserem nele pessoas extremamente agressivas na tentativa de incentivar o grupo a lutar por bons resultados. Será mesmo que essa técnica funciona? Talvez funcione em meio a pessoas agressivas, intelectualmente menos favorecidas, com índole e moral duvidosa, e despreparadas profissionalmente, de forma que elas tentam a qualquer custo obterem os "melhores resultados". Ao meu ver, sinceramente, acho um grande equívoco. Esta situação ao longo do tempo só causará desgaste e gradativamente perda de resultados.


O ideal é tornar consciente a ideia e grupo, máquina, onde cara um é uma peça única e necessária para o bom andamento do todo. Ainda mais conosco, brasileiros, que somos extremamente cordiais. Não que sejamos gentis e bondosos, mas guiados pelo coração, como já defendeu Sérgio Buarque de Holanda no livro Casa-Grande e Senzala. 

A experiência com minha atual equipe de trabalho, após muitas arestas aplainadas, conseguiu resolver essa equação colocando em prática este conceito. Podemos atingir o resultado almejado, incluindo âmbitos coletivos e individuais, sem nos engalfinhar, por meio da cooperação e ajuda mútua. Quanto mais conscientes e intelectualizados, menos impulsivos e animalescos somos. Para tentar ser mais claro, não há emocional e físico que não sucumba a um ambiente agressivo, desleal e estressante causado por uma competição agressiva. 

Ao final do dia todos os integrantes de minha equipe obtiveram excelentes resultados, destacando que estavam iguais em números, e ainda dispostos a superar a meta estabelecida. É importante lembrar que a competitividade positiva esteve presente durante todo o dia com frases do tipo: "Que audácia! Me alcançou. Vou correr para que ninguém me alcance." Seguido de risadas leves e descontraídas. 

Resumo da ópera: ótimos resultados, alto nível de satisfação e quase nenhum estresse, e zero morto ou ferido na batalha de matar um leão por dia. Espero que cada integrante das diversas máquinas existentes, independente de níveis hierárquicos, possam ter essa consciência e implementar ações que almejem encontrar a medida certa para a competitividade.


Silas Macedo

domingo, 13 de abril de 2014

Éter contra o Metal

Em meio a Paulicéia Desvairada um artista anônimo compartilha sua música, seu melhor, e sua alma. 

Prédios, carros, pressa e gente que corre. 

Sucintamente o som rompe as barreiras da insensibilidade. 

A música ecoa e toca discretamente os corações, até mesmo dos desatentos. 

Muitos passam, alguns olham, e o artista continua a canção. 

Ao final, silêncio, e novamente o rugido da cidade. 

Ele respira, se encoraja, e logo volta a tocar com a fé que alguém irá escutar.


Silas Macedo
                                                                                                         vídeo: Silas Macedo


terça-feira, 8 de abril de 2014

Convide sua melhor companhia para dar um passeio especial

Hoje me permiti fazer um convite especial, a uma pessoa que há tempos não sentava para jogar conversa fora, rir, contemplar o mundo, e fazer o que mais gostamos. Antes de fazer o convite questionei quais os motivos que me afastaram tanto dele. Seria o ritmo frenético do dia a dia, displicência, ou priorizar coisas com menos valor? 

Em plena segunda-feira, relutando contra hábitos preguiçosos que por tradição fazem parte do primeiro dia da semana, levantei, abri a janela, e pronto fiz o convite para eu mesmo sair de casa para fazer um passeio especial. Apenas eu e eu mesmo!

Me alimentei bem, vesti a melhor e mais confortável roupa, borrifei um perfume leve, e segui rumo ao passeio tão esperado. Primeiro cuidei do corpo - consultando um médico e fazendo um check-up, com direito a bate papo e risadas - eis uma das vantagens de consultar sempre o mesmo profissional. Depois fui caminhar tranquilamente pela Avenida Paulista - local muito estimado por mim - para cuidar e arejar a alma. Olhei ao meu redor e vi muitas pessoas passarem por mim em ritmo frenético, uma multidão estranhamente solitária.  

Almocei comida japonesa na companhia de uma ex-namorada - hoje uma grande amiga, fiz compras, achei um DVD que eu buscava há tempos sobre o caso amoroso de Salvador Dalí e Federico Garcia Lorca, andei por um livraria que adoro, contemplei a apresentação de um músico em meio ao caos da Paulicéia Desvairada, tomei outro café com uma prima que encontrei por acaso, ouvi um CD esquecido no carro da ex há anos, agora devolvido, com músicas queridas que a cada canção fizeram que lembrasse ainda mais de mim, e por fim degustei saborosamente meu favorito bolo de leite Ninho.

Ao final do dia estava repleto de mim, e reenergizado. Inevitável não lembrar do conselho de uma amiga querida: "Por vezes nossa melhor companhia somos nós mesmos. É legal convidar-se para um passeio." E não é que ela tinha razão!

Diante da vivência e também de relatos de amigos e até desconhecidos, questionei o fato de muitas vezes projetarmos nossa felicidade no outro. Quantas vezes precisamos do outro para ser feliz ou tentar ludibriar a solidão? Por que é tão difícil para algumas pessoas irem ao cinema sozinhas por exemplo? E quando isso se estende ao relacionamento a dois, é comum ver pessoas projetando suas vidas sobre o outro e não junto do outro.

Penso que somos educados a ver no silêncio, na contemplação, e na solidão algo ruim. Ainda crescemos com mitos mal compreendidos sobre a alma gêmea, o que remete muitos a buscar pelo mundo a outra metade. Mas, então somos seres incompletos? Sinceramente, creio que não, porque somos complexos demais para isso. Creio que o ideal é buscar alguém para caminhar ao nosso lado, como dois barcos que resolvem navegar lado a lado mar a dentro, e independente das adversidades estarem juntos por escolha. E nunca tentar a utopia de transformar as duas embarcações em uma só.

E outra condição do nosso tempo é o medo de estar só, de fazer coisas sozinho, receio da rejeição do grupo e da sociedade. Os homens do nosso tempo têm buscado estabelecer laços para não se sentirem sós e deslocados, e ao mesmo tempo deixam os laços frouxos de forma que possam ser desfeitos de forma indolor quando necessário for. Ao meu ver é a falsa sensação de não estar só, contrariando a real necessidade do homem de trilhar seu caminho rumo à evolução sozinho.

Diante de tantas divagações, penso que para não se sentir só é necessário estar bem consigo mesmo, com a alma plena e preenchida. Somente aí teremos condições de não ser abalado pelo fantasma da solidão, e poder conviver bem com as pessoas, sem projetar nelas nossas frustrações e ainda não cobrar o que elas jamais podem nos dar. 

E sugiro - não como uma verdade, mas apenas como o conselho de alguém que também está trilhando o caminho - que você convide sua melhor companhia para dar um passeio. E espero que possa perceber que quando estamos repletos de nós - seja sozinhos ou em meio a uma multidão - é possível sermos felizes e ainda compartilhar isso por meio de generosidade refletida em boas ações e sorrisos.


Silas Macedo

domingo, 24 de novembro de 2013

Olhos de Farol

Esses dias conheci um menino diferente, um garoto com olhos de farol. Ele trazia nos globos oculares luz pura, radiante e infinita. As pupilas emitiam luminosidade aos cantos mais escuros  da Terra, ou onde a luz pudesse alcançar.

Soube que ele nasceu com este dom, uma característica notada pelos seus, mas que não foi visto como um problema. Afinal, era bom ver luz a todo instante no olhar daquela criança. A preocupação inicial era se ele enxergaria o mundo como os demais e, após um tempo, os seus perceberam que o menino via aparentemente como qualquer pessoa.

O menino crescia e conhecia tudo ao seu redor, se encantando a cada dia, observando belezas, sutilezas e peculiaridades que ninguém mais via. O chão, as flores, as estrelas, os animais, os rostos e sorrisos, e toda obra do criador. Obra que, segundo ele, era a perfeição.

Ele passava seus dias contemplando o belo jardim onde vivia com os seus, protegido por fortes muros e, principalmente, pela companhia das pessoas de alma leve. Porém, seguindo os impulsos naturais da humanidade, buscou conhecimento além do horizonte por meio de vivências e processos empíricos. O menino com olhos de farol sentia que precisava de algo além daqueles muros, o que pudesse completar ou ampliar sua alma.

Na calada da noite, saiu sorrateiramente em busca do novo, rompendo a proteção dos muros. Em sua caminhada conheceu pessoas coloridas, cintilantes, mas em sua maioria apagadas, desenhadas pela vida com tons de marrom e cinza. Experimentou sensações, gostos, horizontes, mas também dissabores e tristezas. 

Decidido a regressar, a caminho de volta, ele deparou-se com um ser luminoso. Alguém de luz branca, quente e tênue. Sem dúvida, uma beleza única, luscofuscolar. O menino com olhos de farol se aproximou, tocou, e se permitiu ao maior e mais doloroso aprendizado do homem: a prática do amor. 

As últimas barreiras haviam sido quebradas, e o menino mergulhou em um turbilhão de sensações, das mais divinas, passando pelas carnais, até a animais. A intensidade do sentir, o prendia de forma magnética aquele ser. Sim, ele estava apaixonado! Uma intensidade que exigia mais do que ele podia dar. Aos poucos, ele enxergava menos beleza naquele ser. Passada a primavera incipiente, agora chegara o inverno, fazendo cair cada mascará como pétalas secas, mostrando a pouca afinidade entre os olhos de farol e aquele que ele resolveu chamar de luscofusco. 

Confuso, com o coração perdido em um mar de incertezas, e o olhar ofuscado, ele regressou para os seus. Bem recebido, ele foi remediado com poderosas ervas e orações feitas pelos conselheiros de sua terra. Recuperado, e disposto a entender sua vivência, buscou as orientações de um oráculo que enxergava com os olhos da alma.

O menino relatou toda sua caminhada, recordando detalhes, que o ajudaram a entender o que havia acontecido. Ao final, o oráculo sorriu e disse: busque o espelho e você entenderá. Ainda sem compreender, ele toma em suas mãos a lâmina refletiva e vê o brilho de seus olhos iluminando o ambiente. O oráculo então concluiu: toda luz e beleza que você enxergava e estava em você, era sua luz que iluminava aquele ser, o tornando luscofusco.

Tudo fez sentido, e ele decidiu caminhar sozinho em busca de outros faróis, para que juntos pudessem levar de forma abnegada luz a lugares obscuros.

Silas Macedo