terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Onipresença divina

Onde Deus se manifesta? Tentar responder essa pergunta é algo muito difícil, afinal quem comprova a existência de Deus. Seríamos fruto da vontade divina ou apenas resultado do acaso, restando aos homens ser apenas fruto das teorias evolucionistas de Charles Darwin?


Mas, deixando esses questionamentos de lado, e partindo do princípio que Deus exista, onde ele se apresenta? Em que lugares, templos ou religiões? E como diferenciar suas manifestações? Quais as verdadeiras? Como identificá-las em lugares distintos?

Essas perguntas surgiram em minha mente ao ver manifestações religiosas em lugares distintos, em religiões diferentes, atestadas supostamente pela presença de Deus.

O primeiro contato com essas experiências foi ao participar de uma celebração em uma igreja da Renovação Carismática Católica (RCC), onde as pessoas cantam e oram fervorosamente. Acompanhava o rito religioso, quando fui surpreendido as ouvir pessoas "orando em línguas estranhas” ou "língua dos anjos" – remetendo ao episódio de Pentecostes citado na Bíblia, quando o espírito santo desce sobre os discípulos de Jesus Cristo.

A cerimônia continuou e, ao final, o padre desceu do altar para andar junto aos fiéis com o Santíssimo Sacramento – objeto do altar que transporta a hóstia – para abençoá-los e também exorcizá-los. Por onde o sacerdote passava, as pessoas caíam aos seus pés, fato que representa um livramento ou o desligamento com energias negativas.

Tempos depois, participei de um culto da Igreja Pentecostal em uma clínica de recuperação para adictos (dependentes químicos) onde vi as mesmas manifestações da RCC. Diante da cena, refleti sobre a fé, Deus e suas apresentações aos homens.

Depois do culto, conversei com o Pastor do local que me explicou que todas as igrejas evangélicas pentecostais têm manifestações semelhantes ao apresentar os dons de Deus. Questionei ao Pastor o fato de ter presenciado algo parecido (diria igual) em um segmento da Igreja Católica. Tranquilamente ele respondeu: Deus se manifesta da mesma forma em lugares diferentes!

Outro dia, ainda em uma celebração no sítio dos adictos, eu presenciei uma diferente expressão religiosa. Tratava-se de um culto especial, com vários pastores e batismo de novos fiéis. No meio do rito religioso, vi mulheres levantando inconscientes e seguindo para o meio do salão (próximo ao altar), onde cantavam, dançavam e giravam compulsivamente no próprio eixo.

Foi inevitável comparar aquela manifestação com as mesmas que acontecem em templos ou terreiros das religiões afro-brasileiras, como a umbanda e o candomblé.

Refleti como Deus está acima de qualquer conceito ou dogma, isso porque existe uma divisão entre as religiões, tais como; católicos e evangélicos versus "macumbeiros". Destaco que a palavra versus não foi usada no sentido de guerra ou luta (embora algumas pessoas pratiquem sua fé desta forma), mas como divisora.

Para fechar a reflexão e o aprendizado, após o convite de uma amiga, prestigiei uma celebração da umbanda. Em princípio, ela ficou receosa de qual seria a minha reação, tendo em vista os conceitos e pré-conceitos ensinados em nossa sociedade há tempos. Admito que fiquei apreensivo, diante de tanto receio, mas fui surpreendido por um rito de fé bonito, tranquilo, repleto de simbologias, sincretismos, além de estar arraigada as tradições culturais africanas.

E novamente vi as mulheres dançando, cantando e girando em um transe espiritual. Que dizer ou pensar?

É fato que Deus é etéreo, e as religiões são construídas e vivenciadas por homens (falhos e em estado contínuo de aprendizado e evolução). Pontos que explicam em parte as manifestações divinas em lugares distintos, a pregação comum a prática da caridade e ao amor ao próximo em todas essas religiões, e também os erros, dogmas e equívocos que separam a humanidade em algo que poderia uni-la, a religião (do latim religare, reconectar ao divino, ao que é bom).

Percebi que a essência é a mesma, e que Deus (acreditemos nele ou não) se apresenta de várias maneiras, cores, matizes e lugares, de forma que todos possam senti-lo e presenciá-lo.

Ao ver esse mar de possibilidades, espero continuar prestigiando as faces de Deus em várias religiões em diversos pontos do planeta.


Silas Macedo

domingo, 29 de janeiro de 2012

O aprendizado de Orfeu

Desde os primórdios da humanidade, por meio de mitos, histórias e personagens, os homens registraram suas vivências e as repassaram de boca em boca. Depois por meio de livros as perpeturam para poder transmitir essas experiências as gerações futuras.

Ao ler essas histórias é possível perceber que os personagens mudam de forma e nome, vivem em outra época, mas as experiências se repetem.
Em especial, recentemente tive contato com uma vivência que me remeteu ao mito grego de Orfeu, famoso por ser um poeta genial, de alma sensível, e exímio tocador de lira. Diz a história que ao tocar sua lira os pássaros paravam para ouvi-lo, os animais selvagens se acalmavam e as árvores se curvavam em respeito de tão belo som.
Além de ser um dos argonautas e Jasão, Orfeu se tornou um mito conhecido devido ao seu amor que atravessou mundos e barreiras. Ele amou Eurídice, uma bela jovem, que causou inveja a outros homens em virtude de sua beleza e dedicação ao Orfeu. Aristeu, astuto e invejoso, tentou seduzir Eurídice, mas ela resistiu. Porém, ela a perseguiu, e ao correr ela tropeçou em uma cobra que a mordeu e a matou.
No extremo da tristeza e do desespero, Orfeu desceu ao Reino dos Mortos para reencontrar e resgatar sua amada. Ao chegar à presença de Hades - deus do inferno, o rei dos mortos ficou muito irritado ao ver um vivo em seus domínios, mas a dor e as lágrimas de Orfeu o comoveu. Diante de tanto amor, Perséfone - esposa de Hades - implorou ao marido que ele atendesse as súplicas do tocador de lira.
Hades atendeu ao desejo de Orfeu, autorizando que ele guiasse Eurídice até o mundo dos vivos, porém com uma única condição; que ele não olhasse para sua amada durante todo o percurso no inferno até que ela estivesse outra vez à luz do sol.
Orfeu seguiu tocando sua lira com o intuito de resgatar sua amada, não olhou para trás, mas na porta do inferno titubeou e ao virar-se para certificar que Eurídice o estava seguindo, por um momento seus olhos se cruzaram. Foi quando ela se perdeu para sempre, se tornando apenas um vulto, calando as declarações de amor e silencioando a lira de Orfeu.
Voltando aos dias atuais, o novo Orfeu também conheceu uma Eurídice, bela, perdida, cercada de invejosos e usurpadores, mas ainda sim uma pessoa de alma boa. Assim como na história antiga, eles se apaixonaram e tiveram bons momentos juntos. Mas, fantasmas do passado insistiam em rodear o casal. Assombros que deveriam ser enfrentados de frente, a custo de muito força de vontade, disposição e amor. Orfeu, determinado, continuou tocando sua lira com amor e paixão.
Eurídice tentou trilhar o mesmo caminho, mas no percurso teve um reencontro com a ninfa Branca, capaz de entorpecer e apaziguar momentaneamente a dor da alma. Aparentemente caridosa, a ninfa Branca ajudava aqueles que a procuravam, mas a custa da consciência e da alma daqueles a quem concedia falsa paz. Perdida, e sedenta de verdadeira paz, Eurídice sorveu uma taça do vinho da ninfa, indo ao encontro do rei dos mortos no umbral.
Em meio a gritos, escuridão, perguntas e medo, Eurídice se via perdida. Orfeu, por sua vez, assim como na história antiga, por amor, desceu ao inferno. E a cada fossa que descia, ele se deparava com mentes, dores e realidades distante de tudo que já havia vivenciado. Convicto de seu amor, Orfeu continuava sua caminhada rumo a amada. A casa passo uma dor, uma ferida causada pelos habitantes do inferno.
Diferente da passagem grega, Orfeu e Eurídice se reconheceram pelo olhar, lembrando de tudo que era bom. Decididos a regressar, foram avisados por Hades que a única condição para poderem voltar ao mundo dos homens era jamais titubear e olhas para trás.
O casal seguiu, ambos cansados e feridos. Orfeu seguia, tocando seus melhores acordes com os dedos feridos e o corpo fadigado. Eurídice caminhava e transitava entre a sanidade, a loucura e a total falta de consciência, sequelas do vinho da ninfa Branca.
Ao chegarem à porta do inferno, divisa com o mundo dos homens, Eurídice teve o ímpeto de olhar para trás, motivada por sentimentos que a ligavam ao inferno. Diante disso, novamente ela foi arremessada a mais profunda fossa do inferno. Em desespero, Orfeu chorou.
A porta do inferno, ele questionou, o que teria feito Eurídice olhar para trás e escolher o inferno. Por que ela não ouviu seus acordes? Por que teria ela escolhido a sinfonia da dor, alienação e esquecimento?
Caronte, o barqueiro que guiava os homens pelo rio da morte, que já havia assistido a muitas cenas de despedidas e separações de amor, afirmou: "Caro Orfeu, Eurídice não se perdeu, na verdade se encontrou! Ela fez uma escolha, e agora está entre os seus."
Confuso, o tocador de lira se preparava novamente para descer ao inferno, quando recordou os olhos de Eurídice que demonstravam que, mesmo aparentemente perdida, ela havia feito uma escolha. Decisão essa, que Orfeu, jamais compreenderia. Talvez porque para se encontrar as pessoas deveriam primeiro se perder, ou ainda, porque ela teria escolhido o inferno como seu lar.
Orfeu olhou para suas cicatrizes e percebeu que a descida até o inferno o fez crescer, amadurecer e se tornar um ser humano melhor. Agora ele compreendia as pessoas que viviam longe do Éden e sim no umbral, e não fazia julgamento disso. Ele refletiu, e mais uma vez, tentou resgatar sua amada. Mas, diferente de antes, agora ela não mais desceria ao umbral, apenas tocaria sua lira próxima à porta do inferno, de forma que sua melodia pudesse acalentar a alma de Eurídice e, talvez trazê-la aos mundo dos homens.
Ele tocou, e Eurídice não podia ouvi-lo, afinal estava entorpecida e perdida no umbral. Triste, Orfeu decidiu tocar sempre, oferecendo suas melhores notas e melodias a todos sem distinção. Para sua surpresa, seus acordes chegaram aos ouvidos de uma ninfa, também tocadora de lira. E juntos decidiram tocar suas liras em prol do prazer e deleite da humanidade.
Em resumo, quantos Orfeus e Eurídices existem pelo mundo, quantos não desceram ao umbral por amor? A verdade é que só se sai do inferno por escolha própria. Só se vive um amor por acreditar nele. E assim como a melodia das notas da lira de Orfeu, tudo o que está na mesma vibração permanece junto e se perpetua. Creio que todo aprendizado é válido, mas o Orfeu moderno, aprendeu que sua música deve ser tocado para todos, mas dedicada especialmente àqueles capazes e dispostos a prestigiá-la.
Creio que os mitos e histórias servem para nos fazer refletir, aprender com a caminhada e as experiências de outros, e principalmente, nos permitir superar erros e fazer a diferença.
Silas Macedo

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Amor sinônimo de disposição

Desde sempre a humanidade busca entender, retratar e viver plenamente o amor. Pensadores, filósofos e líderes espirituais já tentaram mostrar aos homens como e onde encontrar o tal sentimento vivido por poucos. Há quem diga que viver um amor de verdade é uma grande utopia.

A busca que teve início há milênios, parece a mesma, ou como afirmam alguns, está cada vez mais difícil. Estabelecer uma relação verdadeira e recíproca nos dias atuais parece algo impossível, principalmente quando a frivolidade faz parte da cultura das pessoas.

Por que devo investir em uma pessoa já que há 6 bilhões de pessoas no planeta que eu possa me divertir? Por que me estressar com uma pessoa se eu posso desistir e conhecer centenas de indivíduos? Por que construir algo sólido se as coisas na vida nunca são para sempre?

Perguntas como essas denotam a posição de pessoas que deixaram ou preferem não acreditar e investir em um amor, por diversos motivos, desde medo, insegurança, descrença, etc. A humanidade tem vivido como nunca a dualidade de desejar profundamente um amor verdadeiro e jamais encontrá-lo devido as próprias ações e escolhas.

Mas, antes de qualquer indagação, o que é amor? Que sentimento é esse que foi idealizado pelo cinema, retratado em quadros e representado em grandes peças teatrais? Alguém pode explicá-lo ou deve ser apenas sentido?

Diante disso, creio que o amor foi idealizado e distanciado do que realmente é, ninguém vive amores perfeitos como no cinema. A Bíblia fala do amor no trecho Coríntios 13 - http://www.portaldabiblia.com/?do=p&p=1cor%2013&v=aa - como algo benevolente, paciente e forte. Mas, a prática desse amor é difícil, pois somos humanos e por mais que tentemos devotar o nosso melhor, erramos, e é ai que surge o desafio.

Penso que os amores verdadeiros são construídos no dia a dia, com compreensão, companheirismo, verdade, amizade, carinho, e acima de tudo, disposição. Uma palavra que coloco como sinônimo de amor, pois é necessário estar disposto a construir e superar dificuldades, principalmente quando a paixão - sentimento naturalmente efêmero - acaba.

Disposição é necessária para entender e superar diferenças e fraquezas, corrigir e perdoar erros, não cobrar do outro o que ele jamais poderá dar, e ainda cultivar e aproveitar o bom do amor. Tendo o cuidado de conquistar diariamente a pessoa amada, além de curtir momentos únicos que apenas o companheirismo e a intimidade permitem.

É necessário estar disposto a seguir o mesmo caminho, ter objetivos comuns. Lembrando que um casal é constituído por dois seres humanos diferentes, com educações, formação moral e intelectual e visão de mundo distintas. Disposição é o fator principal para estabelecer uma relação verdadeira e duradoura. Quando isso acaba ou inexiste entre duas pessoas, não há motivos para que elas fiquem juntas.

E acrescento que essa disposição se estende para as relações familiares e também as amizades, pelo simples fato de que é necessário estar disposto a fazer o bem para o outro. Sem dúvida, creio que a palavra disposição deve ser incluída como sinônimo de amor.


Silas Macedo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Valor e vivências

Esses dias tive uma vivência que me fez refletir muito sobre minha real postura diante da vida. Qual o real valor das coisas e situações? Se perguntar a alguém sobre o que vale mais, ter um bem material durável ou uma experiência, em geral, as pessoas respondem a vivência. Mas, na prática não funciona assim, penso que somos condicionados a acreditar em valores "palpáveis".
O aprendizado aconteceu em um final de semana em que comprei um tênis novo - não muito caro admito, mas estiloso - e fui a um encontro de amigos em um sábado a noite. Naquela noite, fui surpreendido com um convite para ir a cidade de Paranapiacaba, em São Paulo, junto de outros amigos. No domingo pela manhã nos encontramos e seguimos rumo a cidade turística. Ao chegar no local, um município conhecido pelas neblinas e a forte umidade, fui informado que iriamos fazer uma trilha em meio a mata.
Como assim? Pensei que seria um passeio tranquilo por ruas asfaltadas e não por trilhas barrentas. E o tênis novo? - questionei. Segui com o grupo, inicialmente preocupado em não sujar o calçado e não cair no caminho. No decorrer do processo, me dei conta que deveria fazer uma escolha, supostamente simples, mas que diz muito sobre nós (seres humanos). Deveria continuar me preocupando com o tênis novo ou desfrutar a beleza do local e a companhia dos amigos?
Algo que me remeteu a uma parábola que ouvi quando pequeno que dizia que o grande desafio do homem era vir ao mundo, aproveitar tudo, olhar cada detalhe, sentir cada momento, sem perder o foco de onde veio e para onde quer ir.
Decidi, literalmente atolar o pé na lama, e tirar o melhor daquele momento. Carpe Diem - aproveite o dia em latim. Observei cada paisagem, cada detalhes, buscando registrar na minha mente o melhor daquele momento. O local, as pessoas, cada experiência. Ao final, chegamos a uma cachoeira que nos permitiu lavar a alma e voltar renovamos.
Questiono quantas vezes nos pegamos cometendo ações como esta, no qual se eu tivesse optado em ficar no começo do caminho para poupar o tênis do barro, teria perdido a oportunidade de vivenciar algo tão bom. E depois, cerca de uma semana, me deparei com um tênis desbotado, confeccionado com um material de segunda linha.
Viva intensamente e retire o melhor da vida, pois dela só levamos as memórias, aprendizados e amores verdadeiros.
Silas Macedo


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Casa dos Cordéis, reduto de arte e memória


Resultado do idealismo do poeta sonhador Bosco Maciel, a Casa dos Cordéis, instalada em um patrimônio octogenário na Avenida Torres Tibagy, nº 90, no Gopoúva, serve de reduto para a arte, contemplando sua pluralidade em todas as manifestações.


Pensada e decorada com quadros, vitrais e baús antigos, a casa apresenta características do teatro mambembe – lembrando as cores, improviso e a criatividade dos grupos de teatro itinerante, levando aquele que visita o espaço a uma atmosfera artística com referências diretas ao filme ‘O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus', lançado em 2010, e dirigido por diretor Terry Gilian.

As figuras de Dom Quixote de La Mancha, personagem de Miguel de Cervantes, e do doutor Bezerra de Menezes, médico e expoente da doutrina kardecista, estão fixadas na parede do escritório de Maciel, refletindo a índole e os ideais do criador da casa. Um nordestino que migrou para a paulicéia desvairada, despertando em meio à turba, se tornando um guerreiro em prol da cultura.
No universo particular da Casa dos Cordéis há espaço para fantoches no Teatro Magote de Maluvidos, uma oficina de criação de bonecos, o Cine Teatro Atílio Garret – em homenagem ao diretor e ator guarulhense que morreu em 2009, a Praça Marco Costa – em homenagem ao bailarino que atuou na cidade e morreu neste ano. Para o regozijo da cultura, Maciel conta que a casa em breve terá um novo espaço, a Biblioteca Amácio Mazzaropi.

A história do poeta folclorista

O poeta e folclorista Bosco Maciel, 61 anos, nascido em Cajazeiras, na Paraíba, cresceu em uma família de cinco irmãos, demonstrando desde criança aptidão para a arte e a cultura. Ainda na infância participou de concursos de pintura, e na adolescência participou de bandas cantando música brasileira e rock com o repertório dos Beatles.

Nos anos 70, migrou para São Paulo com intuito de ampliar seus horizontes. Aos 20 anos, morou em pensões, trabalhou em fábricas, e como a maioria dos migrantes nordestinos, passou por momentos de dificuldades. Em 1974, se mudou para Guarulhos, tornando-se guarulhense de coração. Casou-se, teve três filhos, e se formou em Administração de Empresas, em 1977, pela então FIG (Faculdades Integradas de Guarulhos, hoje Centro Universitário Metropolitano de São Paulo – FIG Unimesp). Em 2007, passou a integrar a Academia Guarulhense de Letras (AGL), e foi condecorado cidadão guarulhense em 2010.

Sempre ligado à cultura, o poeta, por amor e idealismo, realizou pesquisas e trabalhos resgatando suas origens nas figuras pitorescas do sertão como os emboladores de feira, cegos cantadores, repentistas, benzedeiras, vaqueiros, e tantos personagens que compõem o folclore nordestino.


Em meados de 2007, Maciel criou o Instituto Cultural Casa dos Cordéis, espaço cultural onde ele guarda o próprio acervo, recebe artistas da cidade e do País, atuando diretamente como multiplicador da cultura.

“Tenho responsabilidade como brasileiro e nordestino para com a cultura do meu País. É o conhecimento e a cultura que fornecem ao cidadão as ferramentas para lutar por seus ideais. Eu quero lutar pela valorização da cultura brasileira até o final da minha vida”.


Silas Macedo

domingo, 31 de julho de 2011

Consciência livre e mudança

Esses dias tive contato com uma pessoa que me fez pensar sobre a real possibilidade de mudança de postura do ser humano diante da vida, contradizendo o dito popular "pau que nasce torto, morre torto". Essa pessoa, que chamarei pelo pseudônimo "Change", apareceu em minha vida para pedir perdão a uma pessoa que eu tenho muito apreço.

Na verdade, o contato entre o Change e o meu amigo foi no início da adolescência, no colégio. Época em que o ser humano, em meio a tantas dúvidas, muitas vezes busca se auto-afirmar menosprezando o próximo. Neste caso, a relação entre eles chegou ao bullying, porque o Change fazia parte do grupo popular da escola, e com esse suposto amparo, ele maltratava o meu amigo devido a sua homossexualidade. Piadas, perseguições e pancadas.

Ouvi deste amigo, que aos 14 anos, ele teve contato com um mundo cruel, onde o diferente deve fugir para poder sobreviver. "Corre viadinho!" - gritava o grupo popular. Diante disso, meu amigo se escondia, mudava trajetos, deixou algumas vezes de frequentar a escola, e se escondia, buscava respostas e refúgios, ao ponto de encontrar nas drogas algum alívio para aquela dor.

Aos 14 anos, ele teve contato com maconha e cocaína, em pânico, escondido dentro do banheiro da escola. Não que o histórico justifique a escolha de experimentar as drogas, mas é possível compreender um dos motivos que o levaram a esse caminho. Fato que hoje esse amigo está em uma clínica de tratamento para dependentes químicos.

Agora lembremos de Freud, muitas vezes repudiamos no outro os nossos maiores desejos ou ainda a nós mesmos. Passado quase dez anos, Change procura esse meu amigo para pedir perdão sobre todos os males que fez na adolescência e admitir que também é gay. Ironia do destino, esse reencontro se deu dois dias antes da internação do meu amigo na clínica de recuperação.

Se ele foi perdoado? Claro que sim! Meu amigo tem um bom coração. E afinal, quem nunca errou, quem nunca se sentiu integrante do grupo dos diferentes e excluídos? Quanto ao futuro... Espero sinceramente que meu amigo possa sair da clínica recuperado e pronto para deixar definitivamente as drogas. Quanto ao Change, não devemos julgá-lo, penso que ele é um ótimo exemplo de como as pessoas podem mudar, seja pelo amor ou pela dor.

Em resumo, creio que o ideal é se colocar no lugar do outro antes de realizar qualquer julgamento. Seja ele ligado a sexualidade, posição social, cultural, religiosa ou qualquer outra situação. A meta é respeitar o próximo, colocando em prática o dito "trate o outro exatamente como deseja ser tratado", simples assim.

E para aqueles que não acreditam na mudança do ser humano, pense sobre isso com base nesse relato. Aplicando a lição a qualquer circunstância, seja para um ex-dependente químico, ex-detento, assassino, agressor, etc. Finalizo, afirmando que estamos nesse mundo para aprender com o próximo e evoluir.

Silas Macedo

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Fé em que?


"A tua fé te curou", disse Jesus aos discípulos. Uma frase forte, que diz muito e questiona a postura dos homens diante daquilo que não se vê e nem se pode provar completamente. Nos últimos dias, a questão da fé tem sido questionada diante de mim. Em meio a atribulações, em busca de ajuda, fui questionado por alguém que amo muito, sobre a existência de Deus.

Em meio a dúvida que transitava entre a sanidade e a loucura, ele me perguntou: "Como ter certeza que Deus existe? Quem garante que o Big Bang não foi um acaso? Quem garante que não estamos sós? Qual o sentido para a vida? Por que Deus permite injustiças e ainda que nós escolhamos o caminho errado?"

Como eu, homem de pouca fé, poderia sanar aquelas dúvidas? Tenho buscado uma resposta, uma equação, um sinal para provar a ele (e, a mim mesmo) que Deus existe e que há um sentido maior para a vida. Não ter essa resposta ou não ter fé é algo destrutivo e avassalador. Porque a ânsia por um sentido, remete o ser humano a busca por vivências que apaziguem a dor da alma, por meio de experiências destrutivas e suicidas. Exageros, tais como o consumo de álcool e drogas, por exemplo...

Dizem ainda que a fé é como o ópio ou qualquer outra droga. Penso que tudo, deve passar pela consciência e não passar a linha tênue que leva ao exagero e a loucura. E questiono ainda, como comparar fazer uma oração em silêncio no quarto com o uso da cocaína? Fé, sem dúvida, acalma as dores da alma, e não como a cocaína, que remete seu usuário temporariamente para longe da dor e a um caminho sem volta para longe de si.

Pensei, repensei e cheguei à conclusão que a fé, ter fé, é o grande desafio dado aos homens por Deus. Dizem alguns religiosos, que este é o "mistério da fé". Como provar que o amor é real, que a consciência individual existe, que o ar está aqui se não podemos vê-lo. Ter fé é como pular de peito aberto em precipício e saber que nada nos acontecerá. Não digo fé cega e alienada, mas como um paradigma, acreditar em algo que faz bem a alma. Talvez o desafio dos homens na Terra é justamente acreditar no que não está diante dos olhos, e perceber que há experiências maiores que a explicação. Se sente apenas e não se explica, pelo menos aqui na Terra.

Fato que fui me encontrar com Deus e renovar a minha fé. Ontem, fui buscar uma resposta em uma casa de oração. Em primeiro momento, em um instante cético, pensei: "Que loucura isso tudo. Quem me garante que isso não é uma farsa ou apenas uma maneira de se enganar"? Durante o processo, de forma inexplicável, lá estava eu diante de Deus, renovando minha fé.

Fato que a dor que fazia morada em meu peito foi retirada e agora me sinto com a alma leve. E quem explica isso? Ninguém... apenas a fé.

Renovado, estou pronto para continuar minha caminhada, forte em meus valores, entre eles o amor ágape (repleto em meu peito).

Não seu se um dia terei a resposta de uma equação para provar o que é fé. Mas, sei apenas, que minha fé foi renovada. Espero que todos aqueles que conheço e amo, e ainda, toda a humanidade, possa ter essa experiência e sanar a dor da alma.

Silas Macedo